04 jun
O CRISTO E O SEU CORPO
Clerisvaldo B. Chagas, 4 de junho de 1015
Crônica Nº 1.345
Como hoje é a primeira quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade e também 60 dias após o domingo de Páscoa, temos o Corpo de Cristo, comumente chamado Corpus Christi. Essa festa católica foi instituída pelo Papa Urbano IV no século XIII. O termo vem do latim e significa Corpo de Cristo e propõe celebrar a Eucaristia, ou seja, para uns, a presença simbólica do corpo de Cristo na hóstia, para outros, a presença verdadeira.
Esse dia, tradicionalmente era considerado Dia Santo, mas, de acordo com as leis atuais do país, passou a ser ponto facultativo.
No Brasil, é costume católico enfeitar as ruas por onde irá passar a procissão. Usa-se serragem colorida para confecção de tapetes, mas também areia, farinha e outros materiais nessa prova de amor ao Cristo. Costumam-se, além disso, usar toalhas brancas e lençóis às janelas complementando essa mensagem de fé. Tudo retrata, especialmente a Eucaristia.
É uma Festa de Guarda, que significa para a obrigatoriedade em participar da Santa Missa na forma estabelecida pela conferência episcopal do respectivo país.
“Quanto à procissão pelas vias públicas, atende a uma recomendação do Código de Direito Canônico (cânone 944) que determina ao bispo diocesano que a providencie, onde for possível, para testemunhar publicamente a adoração e a veneração para com a Santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. É recomendado que, nestas datas, a não ser por causa grave e urgente, não se ausente da diocese o bispo (cânone 395)”.
A tradição do mundo católico sertanejo de Alagoas, sempre apresenta o sentimento fecundo procurando honrar nas avenidas e igrejas a bela representação do Corpus Christi.
Essa é uma boa oportunidade de reconciliação com o Senhor e com a vida.
03 jun
A SINA DA CONVIVÊNCIA
Clerisvaldo B. Chagas, 3 de junho de 2015
Crônica Nº 1.434
A meninada da escola do meu neto já me avisou. Vem me fazer uma visita para conversarmos sobre a seca. Muito bom que a escola mostre a esses pequenos habitantes o fenômeno climático de fundamental importância no lugar em que nasceram, vivem e convivem.
Enquanto isso também, compartilhamos a tristeza e preocupação pelas previsões meteorológicas que apontavam maio como o início das chuvas para esse inverno que insiste em nos driblar. Por escrever tanto sobre o nosso sertão e seus problemas, estou adotando, as mensagens que chegam afirmando que a nossa literatura representa o nosso semiárido. Sendo assim, acrescento ao título “Escritor Símbolo de Santana do Ipanema” ao também “Escritor Símbolo do Sertão Alagoano”. Humildade na frente, mas com afirmação dos nossos assíduos leitores.
Espontaneamente, faço como Jesus mandou: servir sempre como fez meu pai e meu avô paterno, cuja ilustração representa abaixo:
Meu avô, José Celestino das Chagas, conhecido como Zuza, era proprietário da Fazenda Trindade, no sítio Poço da Pedra, em Santana do Ipanema. Certa feita uma seca braba tomou conta da região. Na fronteira de Santana com o atual município de Carneiros, todas as fontes da redondeza haviam secado, tornando-se comum a passagem de retirantes pela sua fazenda. O único reservatório de água por ali, era o açude do meu avô. Todos vinham apanhar água naquela barragem artificial, até que um dia alguém advertiu a José Celestino da seguinte maneira: “Seu Zuza, o açude está quase seco. Se eu fosse o senhor não permitiria mais a ninguém retirar água, pois, poderá ficar sem nada”. E o meu avô, que era um homem sábio, filósofo matuto e temente a Deus, disse: “Deixe que todos venham a minha fonte”. A pessoa insistiu indagando: “E se a fonte secar?” Então, o meu avô Zuza, concluiu: “Quando a minha fonte secar, eu irei com os outros em busca de novas fontes”.
Vamos rezar junto aos agropecuaristas pelas fontes de nós todos.
02 jun
59 ANOS DE RODOVIA EM ALAGOAS
Clerisvaldo B. Chagas, 2 de junho de 2015
Crônica Nº 1.433
Completamos 59 anos da primeira rodovia asfáltica de Alagoas. Foi no dia 29 de janeiro de 1956 quando aconteceu a inauguração do trecho Palmeira dos Índios – Maceió, ainda no governo estadual de Arnon de Mello. A citada rodovia pegava os limites do Sertão/Agreste, Zona da Mata e litoral. Isso representou um marco e tanto no desenvolvimento do estado e um suspiro de alívio profundo para os habitantes do sertão extremo. Pelo menos se excluía a metade do sofrimento de viagens longas até a capital. A metade porque a banda oeste ainda teria de enfrentar a lama, a poeira, atoleiros e catabis até encostar-se à “Princesa do Agreste”, Palmeira dos Índios, oásis dos viajantes sertanejos.
Nos anos 70 e 80 já estavam definidos os pontos de paradas que os interioranos empreendiam até Maceió, em carro pequeno. Palmeira estava fora, e resumiam-se em três os lugares do desjejum. O primeiro era na “Cabeça d’Anta”, entre Palmeira dos Índios e Belém, lugar de terras férteis, barro vermelho e pomares. Era a parada da fruta, onde à margem direita da BR-316 havia uma pequena construção repleta de frutos, sendo o coco verde o carro-chefe mais um engenho manual para caldo de cana. Os automóveis faziam fila no acostamento. Ainda hoje a pequena construção existe, sem as vendas.
A segunda parada ficava após Maribondo, nas curvas de sopé de montanhas, de nome Salgado, lugar de águas excelentes. Era um bom café da manhã. Atualmente a casa de varanda ainda resiste, quase em ruínas.
A terceira parada, para quem queria café reforçado era no sítio Corumbá, perto de Atalaia, onde havia um restaurante à margem direita e, um tipo de macaxeira chamada macaxeira ouro (tinha essa cor), muito saborosa. Mas, como os outros marcos, pelo menos ainda resta à construção azul para os que não apagaram da lembrança
Para quem ia a Maceió nos antigos ônibus da Companhia Progresso, de motor à frente, a parada se dava em Maribondo na “Churrascaria Brasília”, de um italiano, repleta de pensamentos escritos nas paredes.
E antes? Ah, sim! E antes? Pesquise, pesquisador.
01 jun
Rios e reservatórios secos
À baixo, reproduzo o email que recebi da amiga Cristiane Mazzetti do GreenPeace e junto ao texto, posto também o vídeo feito pela sua equipe.
Olá Erickson,
Participei de uma expedição no final de março que rodou 1.000 km para registrar o nível da água e desmatamento em 3 reservatórios que abastecem as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Pisei em muito chão craquelado e vi muitos rios e reservatórios secos no final da estação chuvosa. Floresta era algo raro, em volta dos rios vi muito pasto, plantio de eucalipto e áreas degradadas. Elas deveriam exibir matas exuberantes e cheias de vida.
Ficou ainda mais claro que, sem floresta, não tem água. Para que vocês possam conferir e sentir o que passamos nessa expedição preparamos uma série de três vídeos.
A crise hídrica prova que estamos começando a pagar a conta por desmatar por tanto tempo as florestas do Sudeste. O desmatamento tem que acabar e você pode fazer parte dessa mudança que trará benefícios para todos nós.
Muito obrigada,
Cristiane Mazzetti -Greenpeace Brasil
01 jun
Tagor Fashall “O Crime” (1ª Parte)
Na rua que um dia existiu,meninos brincavam. Corriam em suas bicicletas. Na praça brincavam, e pressa não tinha. O céu de nuvens chuvosas, dizendo cinza, e vinham. O que do alto estava prometido pra vir,decerto viria. E, os sonhostodos dos homens. Muitos deles, jamais se concretizariam.E quando as coisas não davam certo como haviam sido planejadas, outras metas eram traçadas. Debaixo do calçamento das ruas, nos recônditos dos becos escuros. Alegrias que um dia alguém sonhouse escondiam. Brincadeiras de crianças, que bem fundo o mundo sepultou. Muito baixo dos paralelepípedos jaziam. Lá aonde as cigarras dormiam seus sonos letárgicos, a esperarema outra estação, e só então cantariam.
A Taberna ficava de esquina. Pelo menos dois séculos de distância separava a aldeia dos meninos das bicicletas. O balcão de madeira escura, com o tempo daquele jeito,ainda mais escura se fazia. Afaca e o queijo branco no prato. Uma taça de vinho tinto, não deixava dúvida, tudo estava lá. O candelabro pendido do teto. Um par de olhos verdes conseguia sentir aquele cheiro. O estampido da rolha tirado do gargalo tinha solene importância. Pulmões inalando, cérebro incendiando, com a chegadado líquido de cor púrpuraao estômago. Na primeira porta que dá pra rua, o homem com vestes de alguém que viera das arábias, se havia. Um turbante escondia a cabeleira valorizando ainda mais o vasto bigode. Uma adaga na faixa de pano da cintura.TagorFashall tinha um cavalo chamado Pompadour. O havia deixado com um cuidador, no estaleiro do cais do porto. Olhava fixo. Fosse o que fosse, olhava fixo.Aquele era olhar, de quem procurava. A aldeia de ÉtoleChavalier amanhecera com um habitante vivo, a menos. O pai de Emile Passiono ferreiro da aldeia, tinha sido morto. Uma semana antes MorionLucindorecebera a visita de seu sobrinho Rafael Bertrand, que teria ido buscar um elmo, a muito encomendado. Conversaram sobre uma herança de família. O jovem como tio confabulou sobre os papeis de um lote de terraspertencente a seus pais já falecidos. Porem não teve resposta a contento. O tio apenas contou-lhe uma história,na verdade uma fábula. O rapaz teria ido embora, e no outro dia o ferreiro estava morto. A presença de Tagor na aldeia por ser estrangeiro, levantou suspeita. Ainda mais porque também ele tinha estado na estribaria de MorionLucindo.
A fábula que o velho ferrageiro contou foi esta:“Meu querido sobrinho, de longe tenho acompanhado a vida que tu tens levado desde nascido até agora. Muito triste fiquei ao saber que ao adquirir a juventude abandonastes a vida do campo, em que vivia com seus pais, e teus outros dois irmãos. Fostes habitar um principado onde o luxo, as posses e a riqueza acima dos valores morais sempre foram colocados. Ali nunca se dera o valor que um homem realmente tem, ainda mais se somente virtudespor possetivesse. O que tenho a dizer-te sobre as terras pertencentes a teu pai, é o que um nômade árabe certo dia contou-me bem aqui sentado nesse banco, disse-me: Um velho lavrador tinha três filhos. Após ficar gravemente enfermo e sentindo que iria morrer, chamou os dois filhos que nunca o abandonara a cabeceira de sua cama, assim lhes falou: -Meus queridos filhos, sinto a morte rondando os meus dias. Teu irmão vaidoso que um dia partiu, nunca voltou. Jamais mandou notícia alguma,nem sei do seu paradeiro. Quero dizer que toda fortuna que possuo e que deixarei por herança a ser repartida em parte iguais, são estas terras que herdei dos meus pais,e que, espero continuem a cultivá-las. Quando vocês eram pequenos de muito longe, veio a mim, um mago que atendia pelo nome de TagorFashall disse-me quecom essas terrasteve um sonho. No seu sonho via, a dois pés de profundidade, em algum lugar que não soube determinar onde, havia um tesouro enterrado. Desde então pus-me a procurar. Não tive a sorte de encontra-lo, porem espero que vocês continuem cultivando porque o tesouro é encantado. E poderá surgir num lugar onde eu mesmo já devo até ter cavado, sem lograr êxito.”
TagorFashall queria muito entender porque o fato de olhar pra aquela senhora da sombrinha causava-lhe certa comoção. Talvez lhe trouxesse muito fortes recordações. Issosentia que lhes vinha. Aquela mulher de vestido longo, passeando na praça. Um penteado suntuoso que lembrava Pompadur. Debaixo duma sobrinha branca de belos bordados, tão graciosa. Enquanto ia o calendário andando pelo menos dois séculos para trás. E aquela tarde que até então parecia desarmada de graça, vindoa moça da sombrinha, mudou tudo. Três meninosiam andando de bicicleta. JoanaAntonieta nascera menina pobre, num bairro afastado da cidade, perto da igreja de Santo Eustáquio. Vivia-se uma das maiores crise de recessão, os governos indo a banca rota. Quebrados literalmente aumentavam os impostos. Os campos rurais também enfrentava uma de suas maiores crises climáticas e de desabastecimento. Senhora Luiza Madalena mãe de Antonieta viuvara, pra não morrer de fome,fugira do campo indo viver de bicos na periferia da cidade. A língua da rua falava de sua modesta casa, que virara casa de prostituição. Muitos homens, alguns influentes outros nem tanto, estariam ligados ao seu nome. O estilo de vida da madame não condizia com a presença duma criança carecendo de ser criada e educada nos princípios da fé cristã. E Joana Antonieta foi mandada para um ambiente mais saudável. Foi enviada para um Internato das Irmãs Ursulinas, a pouco mais de seis quilômetros da capital tida e conhecida como “Terra das Águas”. A menina por toda sua infância permaneceu lá. Devido a doenças a que tivera na primeira infância, também o fato de não ter sido amamentada tinha saúde que inspirava cuidados. Quando completou quinze anos de idade teve uma pneumonia que quase lhe tirou a vida, passou seis semanas de cama. Quando se recuperou, por direito, foi visitar sua mãe. Sua mãe ficou encantada ao ver em que havia se transformada sua pequena Antonieta. Uma moça de muito encanto, dotada de beleza incomum para as moças de sua época. O olhar sagaz, inteligente de quem entendia a vida, de quem já sofrera. Alguém de coragem e ambição não se deixar abater com qualquer derrota,inteligente o suficiente pra não se deixar enganar facilmente. Alguém que entendia e encarava o mundo como algo imprevisível, e perigoso.
Três meninos de bonés bufante, em sóbrias bicicletas negras, pedalavam na praça. Sobre selins de couro, suplantados em molas. Enormes guidões niquelados, abruptamente arqueados, pneumáticos de aros enormes. TagorFashallnoutra dimensãobuscava uma propriedade pertencente a seu tio, na verdade uma ilha. Estivera na vila para adquirir mantimento, conversar com pessoas quem sabe fazer amizades. Joane Antonieta sobre si,sentia o olhar daquele homem, e indo graciosamente ia. O intendente deu ordem a um guarda que levou intimação para que o árabe imediatamente comparecesse a cadeia pública. Depois de interrogatório acabou preso, acusado de suspeito de matar o ferreiro. Fashall até entendia que o fato de ser estrangeiro, e ter estado na estrebaria do ferreiro mesmo à muito tempo, colocava-o na condição de suspeito de assassinato. Não achava justo, no entanto, ser acusado de matar um homem a quem jamais vira, além do que, motivo algum teria para cometer tal crime. Acontece que Rafael Bertrand teve a ideia dum álibi perfeito,ao perceber o quanto o forasteiro tinha de semelhança física com ele. Algumas pessoas viram quando entrou na estrebaria. Horas depois, o ferreiro fora encontrado morto. ÉmilePassion a filha do ferreiro foi chamada para depor, e no seu depoimento confirmou que seu pai tinha, no dia do sinistro, recebido a visita de um rapaz com as características daquele homem. Tudo estava levando para a incriminação do árabe.
Eis que chegou o dia de seu julgamento. Em praça pública ocorriam julgamentos, e em caso de condenação,execução na mesma hora por enforcamento. Nesse dia compareceram o juiz da comarca, o sacerdote, e o intendente. O algoz com sua carapuça. E os meninos brincavamalheios aquele acontecimento até mesmo porque distavamdaquela época. Joane Antonietapediu a palavra. Inquiriu ao juiz se olhando para a praça conseguia vertrês meninos de veste engraçadas, andando em suas geringonças de ferro. Como resposta ouviu uma negativa. Acontece que Antonieta sabia que o juiz, assim como todo o público ali presente tinha aquela visão. O magistradomantinha um caso com a mulher do intendente. Os meninos mesmos, certa vez, viram quando o juiz entrara pela janela do jardim na calada da noite. Cuja sacada era guarnecida por um parreiral.E Joanequestionou ao magistrado: -Àqueles meninos a quem o meritíssimo doutor juiz de Direito, diz não estar enxergando, podem eles serem acusados de roubar uvas do parreiral do jardim do intendente? Se alguém não tiver visto tal crime ser cometido? Todos os presentes ficaram admirados do que viam e ouviam. O juiz entendeu que acabara de cair numa cilada. E não viu alternativa outra a não ser inocentar TagorFashall.
Fabio Campos 26 de maio de 2014 (Na próxima semana continua…)
01 jun
HISTORIANDO OS ALFAIATES
Clerisvaldo B. Chagas, 1º de junho de 2015
Crônica Nº 1.432
O livro “O boi, a bota e a batina, história completa de Santana do Ipanema”, também traz a história dos alfaiates, barbeiros, ferreiros, canoeiros, sapateiros e cabarés de Santana. Não é nada demais dizer, porém, que no sábado passado, feira da cidade, estivemos com o último dos remanescentes alfaiates em Santana. Conversamos muito. Gilson Saraiva, o homem que disputava cabeleira conosco em 1960 (modismo) e bom num taboleiro de “dama”, trabalha no famoso beco do comércio de Santana do Ipanema, São Sebastião. O Beco de São Sebastião fica entre a Rua do Comércio e a Rua Professor Enéas, alguns metros para o leito do rio Ipanema. O beco era famoso quando nas festas do mês de julho de Senhora Santana, formava a via principal para o motel em área livre do rio, ocasião em que os casais procuravam as pedras e areias do leito seco.
Beco de São Sebastião por causa da igrejinha particular da família Rocha, dedicada ao santo, construída na esquina, aproximadamente, em 1915.
Gilson Alfaiate nos falou que o Walter Alcântara ainda era vivo, possuindo serralharia no Bairro Domingos Acácio onde para lá se desloca a pé todos os santos dias com seus mais de oitenta anos.
Walter Alcântara era proprietário da “Alfaiataria Nova Aurora” (abaixo do Beco São Sebastião) com mais de dez funcionários e dominava a região nesse ramo interessante, nas décadas 50-60. Inúmeros foram os discípulos de Walter e que depois se tornaram profissionais independentes, entre eles Gilson Saraiva, Carlos Sabão, Juca Alfaiate e Demerval Pontes, amplamente conhecidos.
Nunca sequer dei um bom-dia ao Walter Alcântara, pois era apenas um garoto que passava para as aulas de “Admissão ao Ginásio”, por sua Alfaiataria, em direção à escola de dona Helena Oliveira na calçada alta da Ponte do Padre. Ali me encontrava com os colegas Neubes, Serrinha Negra, Arquimedes, Demóstenes, Edson Caveirão, Zé Vieira, Galego Bigula, entre outros que não me veem mais à memória.
A “Alfaiataria Nova Aurora” faz parte da história de Santana registrada por mim (único registro). Mesmo assim acho que o Walter nem me conhece, apesar de ter sido colega de repartição da sua virtuosa e educadíssima esposa Léa Malta. A timidez de um garoto não permitia conversar com os mais velhos. Talvez eu vá a sua serralharia para colher mais subsídios sobre a nossa terra e conversar com o homem elegante que marcou época em Santana do Ipanema, cujo pai, foi compadre do meu.
29 Maio
A OUTRA FACE DOS CANAVIAIS
Clerisvaldo B. Chagas, 29 de maio de 2015
Crônica Nº1. 431
Por motivos diversos muda-se a paisagem de mais de quatrocentos anos, forte, verde e extensa dos canaviais das Alagoas.
A Zona da Mata alagoana da Saccharum officinarum L. desde os tempos das invasões holandesas, sempre havia sido o Nordeste rico das elites, dos antigos senhores de engenho, atuais usineiros, proprietários de terras da matéria-prima. A falência dessa classe produtora gerou no passado a chamada “guerra dos mascates”, entre os falidos e os portugueses ricos agiotas.
Cenário forte do escravismo durante centenas de anos, também foi símbolo de prepotência, crimes absurdos e mão de obra contemporânea, extensa e explorada.
Os canaviais ainda representaram o poder político no estado, tanto do executivo quanto do legislativo.
Não sabemos se estamos vivenciando uma nova falência da Saccharum, todavia, o verde escuro da cana-de-açúcar vai cedendo lugar ao verde pálido da silvicultura na foto do eucalipto. No estado, já é uma realidade a mudança paisagística, mas não se tem certeza como ficará o cenário de um futuro de dez ou quinze anos.
Baseado em técnicas agrícolas modernas, esse tipo de plantio vai ocupando a terra em formação florestal silenciosa, ilustrando a planície costeira (tabuleiros) morros, colinas, barrancos e depressões.
Se a alternativa não fosse boa para os proprietários, não aconteceria o plantio, como é óbvio. Para o estado, só o tempo dirá. Para o povo, talvez, se os canaviais fossem substituídos pelos grãos básicos da alimentação brasileira melhorasse bastante diante das toneladas a mais.
De qualquer forma, a geografia econômica do estado vai mudando com a plantação desse produto de origem australiana. Adiante veremos o resultado geral do chamado “deserto verde”.
28 Maio
O CONTRASTE METEOROLÓGICO
Clerisvaldo B. Chagas, 28 de maio de 2015.
Crônica Nº 1. 430
Nas particularidades meteorológicas, os estudos estão sempre avançados e suas descobertas impressionantes. Quanto mais sabemos sobre as ações da natureza, maiores são as oportunidades preventivas para um planeta com soluções. Inúmeros são os cientistas anônimos que colaboram para melhor qualidade de vida ofertada a humanidade. A grandeza de fenômenos atmosféricos longe de nós, divulgados em alta dimensão, reduzem, muitas vezes os nossos olhares para as coisas que julgamos menores, perto de nós, mas complexas e instigantes quando nos voltamos para decifrar os seus mistérios.
Em Alagoas, nas viagens constantes Médio Sertão – Maceió e vice-versa, através da BR-316, temos de “cor e salteado” a região mais seca do trajeto. Trata-se do trecho do município de Dois Riachos (Terra da Marta) entre o próprio acidente geográfico Dois Riachos e, aproximadamente, imediações da chamada “pedra do padre Cícero”, entre este município e Cacimbinhas. Ali é constante, verão e inverno, a circulação de carroças de burro conduzindo água em tonéis de plástico rígido e azul. Isso coincide quase em linha reta, com as imediações de trecho semelhante entre Batalha e Jaramataia (mais Jaramataia) pelas rodovias estaduais.
Cremos que esse fenômeno em linhas paralelas e próximas ainda não tenha sido devidamente estudado.
Em Jaramataia, zona de transição sertão/agreste, cria-se o gado bovino, cujos campos são semeados de juazeiros. No verão ocorrem ventos mais fortes e quentes do que em outros lugares. Em Dois Riachos, a presença religiosa no cocuruto de uma pedra à margem da rodovia, indica a Fé inquebrantável no padre Cícero Romão Batista e sua igrejinha. Multidões e multidões acorrem a grande festa em homenagem ao padre do Juazeiro, em sua época, no município de Dois Riachos.
O reverso é importante. Entre dez chuvaradas em que o sertanejo é surpreendido no mesmo trajeto da BR-316, oito são no município de Maribondo (agreste), porém, ainda no Médio Sertão, o homem rural costuma dizer que o município de Olho d’Água das Flores (brejo de pé de serra) é um lugar em que chove bem.
Estude os fenômenos e nos traga o resultado, compadre.
27 Maio
FENIX TELÚRICAS
Três meninas se haviam na praça da igrejinha. Amanda, Jéssica e Veridiana. A um só tempo falavam, falas de meninas tenras. Dos poucos mais de dois lustros de vida confabulavam. De como umas as outras, achavam que estavam ficando, feias, deformadas. E que logo, logo, de tanto caírem-lhes os cabelos ficariam carecas. Do ódio às espinhas que mesmo sem terem sido chamadas se lhes vinham. Dos esmaltes da mamãe que roídos descascavam. Do devotado amor ao chocolate. E de meninos chatos que só queriam saber de futebol. Tudo que emitisse algum reflexo, às suas voltas, acabava virando espelho. E o que mais entendiam era que todas as coisas do mundo deviam render graças as suas existências.
“Eu fui no Itororó beber água e não achei
Achei bela morena que no Itororó deixei”
Amanda tinha medo de borboletas. Melhor dizendo, verdadeira fobia a todo e qualquer isento alado. Outro dia, quer dizer, outra noite, em que faltou energia elétrica, quase provocou um incêndio em casa. Atraída pela luz duma vela, uma Betularia negra, uma bela duma mariposa, enfiou-se quarto à dentro. Foi um deus-nos-acuda. Ficou tudo revirado, lençol e colchão chamuscado, e o cheiro de pano queimado permaneceu por um bom tempo. Tinha mania de colecionar coisas, chaveiros, grampos de cabelo, fitinhas de pulso. No último aniversário ganhara um par de pantufas que imitava o rosto duma tartaruga, o que já rendera bela discussão com Jéssica que teimava que era o rosto dum sapo. Num diário escrevia coisas, que a ninguém mais além dela própria era capaz de revelar. De como queria que seu quarto tivesse uma janela enorme, que desse pra ver a rua. E quando viesse o inverno pudesse ver as nuvens despencando do céu. E como queria correr na chuva, só de calcinha. De como às vezes desejaria ser um daqueles meninos pobres, que ficavam o dia todo na rua, e quando chovia como naquele maio, ficavam brincando na sarjeta. Acompanhando a fantástica viajem de seus barquinhos de papel, vencendo o aguaceiro até a bueira no fim da ladeira. E doidos desembocavam no rio, dando adeus a seus donos. Pra debaixo das bicas corriam, a receberem o forte jato que lhes feriam a cabeça, quase a despi-los dos seus trapos. Ficava pensando quem cuidaria deles depois dali. Quem lhes enxugariam os corpinhos magros. Quem lhes envolveriam em lençóis, e lhes serviriam biscoito e uma xícara de leite quentinho. E já bastante fatigados deitariam numa cama conciliariam o sono e sonhariam sonhos onde podiam voar sobre um mar bonito. Voando rumo ao horizonte, a encontrar Peter Pan, na terra do nunca. Suas mães a beira do fogo de certo cantariam cantigas antigas, que falava de bois da cara preta, de pavão em cima do telhado, de ir à Espanha. Enquanto o bule fumegante deitaria um líquido aromático, numa xícara branquinha de dar dó.
“Fui à Espanha buscar meu Chapéu
Azul e branco da cor daquele Céu
Olha palma, palma, palma. Olha pé, pé, pé
Olha roda, roda, roda caranguejo Peixe é.”
Ana Jéssica gostava mesmo de ouvir música de rock’n roll. De ouvir coisas do passado, de fotos antigas. Influência do pai, que era fã dos Beatles, tinha uma guitarra e uma réplica duma Halley Davison. Nos finais de semana, ia a encontros de motoqueiros muito, muito longe, e nunca a levava. Sempre deixada na chácara do tio Armando, ou no sítio de vô Rosalvo e vó Isabel. Preferia a guarda dos avós, ali os abusos eram mais tolerados. Sempre voltava de lá com uma relíquia, tirada dum velho baú de maçaranduba, enlaçado por dois cintos de couro curtido e ensebado. Da última vez ganhou um broche dourado pertencente ao seu bisavô, condecorado por ocasião do sesquicentenário da independência em Brasília. Trazia as efígies, dum lado Bento Gonçalves do outro Anita Garibaldi. Com muito orgulho exibiria entre os colegas da escola, a honra ao mérito do pai de seu avô coronel Idelbrando Costa Rêgo que havia lutado na revolução Farroupilha. De tardinha dava sempre um jeito de assaltar a dispensa, com direito a rapadura batida, mel de mandaçaia, frutas cristalizadas. E tinham os passeios a cavalo quase sempre sem hora pra acabar. Dentre as três meninas, era ela a que mais se preocupava com a aparência. Ainda mais por ser rechonchuda. Brigava com a balança, com os meninos que lhe apelidavam, e com as roupas que iam cada vez mais ficando apertadas. Esse incômodo compensava sendo ainda mais extravagante. Caprichava na maquiagem, no uso de bolsas, colares, pulseiras, cílios postiços e penteados estrambólicos. Gostava do jeito escrachado de Elis Regina. Outro dia, ao sair da escola se inventou de passear na garupa da lambreta de seu primo Plínio, em plena rua acabaram caindo os dois. O que lhes renderia um braço quebrado uma perna luxada. Duas semanas encima duma cama, sem sair de casa. Vieram visitá-la os primos, tias, e a turma da escola. Todos assinariam os nomes no cano de gesso.
“Passarás passarás um delas a de ficar
Se não for a da frente a de ser a de detrás
De detrás de detrás
Tenho dois filhos pequeninos
Não posso mais demorar, demorar, demorar”
Veridiana queria ser guerrilheira das tropas Somozista na Nicarágua. Um dia ainda conheceria aquele mundo mostrado na revista National Geographic. Desbravaria sertões, florestas. Escalaria montanhas, encontraria uma cachoeira, ou quem sabe uma caverna, nunca dantes visitada pela civilização, a qual daria seu nome. Apaixonada por tudo que lembrava natureza. A irmã mais velha Suzy Morgana sua fonte de inspiração era bióloga. Imitava-a nos modos de vestir e pentear-se. Até nos trejeitos das mãos, da entonação da voz. Vez outra levava uns sopapos, por pegar, sem autorização, coisas emprestado, sutiãs, batons, perfumes, aos quais jamais devolveria. Pela fresta da fechadura da porta contígua a sala de estar gostava de espionar o namoro da irmã. No espelho do toucador borrava todo de baton a ensaiar beijos que um dia daria no namorado que um dia teria. Várias vezes viu os namorados trocando carícias viu quando fumavam escondido, e abanavam a fumaça pra rua. Enchiam a boca de chicletes se percebiam que vinha alguém. As guimbas enfiavam na caqueira de samambaias e avencas. Veridiana guardaria ainda um trunfo que usaria para chantagear a irmã, viu-a livrar-se dum monte de comprimidos anticoncepcional enterrando-os no estrume dum pé de Crote. Dias depois sua mãe, elogiava de como vistosa e revigorada estava a planta.
“Minha gatinha parda
Com certeza que sumiu
Onde está minha gatinha
Você, sabe? Você sabe? Você viu?”
Três meninas, sentadas nas poltronas de veludo azul do salão paroquial. Cochilavam umas encostadas nas outras. A noite, haviam passado em claro. No velório do vô Rosalvo. Porque tivera que morrer justo na semana dos ensaios das apresentações, pelo dia das mães na escola. Amanda e Veridiana viram Jéssica voltar do banheiro chorando. Buscou o colo da mãe. Pensaram que era ainda comoção pelo avô, na verdade naquela manhã foi pro banheiro menina e voltou moça. As mãos alvas de sua mãe seguravam um buquê de flores, os dedos longos as unhas pareciam pétalas afagaram os cabelos da menina-moça. Arqueou a boca que dali a pouco beijaria o rosto gélido do pai. Boca com gosto de café requentado. Boca de toda manhãzinha mastigar pão de queijo antes de levar Jéssica a escola. Boca de gritar que meio dia não era hora de tomar sorvete, pois não teria fome pro almoço. Boca de rezar Ave-Marias apressadas para a filha e as amigas da sua filha. Nunca conseguindo terminar. As últimas palavras vindo morrer nos lábios quando já estava deitada. Antes de dormir Veridiana olhava fixo pra bailarina de porcelana sobre o criado mudo, sob a luz do abajur. Jéssica abraçada seu gatinho de pelúcia se sentia tão mais protegida. Amanda deitada, ainda de olhos aberto, olhava através de sua imensa janela imaginária e via um céu de maio. Repleto de nuvens carregadas, dali a pouco ia chover. E no meio da praça três meninos, andando de bicicleta.
Fabio Campos 18 de maio de 2015
04 jun
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