Devido a importância da criação do primeiro cardeal brasileiro do pontificado de Francisco, abrimos espaço para a opinião abalizada de Gerson Camarotti, apresentada no Blog do Camarotti, no G1.
“O caráter conciliador é o principal traço do perfil de dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, cuja nomeação para cardeal foi anunciada neste domingo pelo Papa Francisco, com quem tem estreita relação.
Antes mesmo da eleição do Papa Francisco, dom Orani já demonstrava ter um estilo semelhante ao do pontífice, na época em que Jorge Mario Bergoglio era arcebispo de Buenos Aires: o de sair do palácio episcopal para ir às ruas. No Rio de Janeiro, Dom Orani sempre visitou morros e comunidades pobres, mesmo quando havia ameaças do narcotráfico.
Na Jornada Mundial da Juventude, no ano passado, no Rio, chamou muito a atenção a sintonia entre o Papa e dom Orani, anfitrião do evento. Isso fortaleceu ainda mais a relação pessoal entre eles.
Dom Orani também empresta um caráter nacional à condição de cardeal brasileiro – antes de ser arcebispo do Rio de Janeiro, foi bispo em São José do Preto (SP) e arcebispo em Belém. É um dos bispos que mais trata da questão amazônica. Foi dele a iniciativa de propor a Amazônia como tema da Campanha da Fraternidade, em 2007, única vez em que o lançamento do evento ocorreu fora de Brasília (em Belém).
Além disso, é um homem de comunicação – administrou a TV Nazaré e foi presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação da CNBB –, qualidade considerada fundamental no momento em que a Igreja Católica se empenha em recuperar fieis”.
A indicação do Papa Francisco, portanto, deve ser motivo de orgulho para o Brasil e é claro que esperamos muito do novo cardeal. Em um tempo em que o ter estar valendo mais do que o ser, o povo católico do Brasil vai identificar-se muito com o CARDEAL TEMPESTA.
Hoje (9), durante inauguração da Academia, em Santana, o prefeito Mário Silva, em seu pronunciamento, falou da burocracia para realizar obras que se exige das Prefeituras. Inclusive, o prefeito chegou a falar sobre um conselho que alguém teria dado para trazer o IMA para Santana do Ipanema e atender a região, para agilizar soluções de problemas com o meio ambiente. Completamente errado o conselho que deram ao prefeito. A AGRIPA – Associação Guardiões do Rio Ipanema – já havia falado como o Secretário do Meio Ambiente local, quando fez ver a necessidade urgente de leis municipais sobre o assunto, elaboradas pela Câmara de Vereadores. Cada estado e municípios devem elaborar suas leis baseadas no Código Florestal Brasileiro. Os vereadores de gestões anteriores fizeram ouvido de mercador à qualidade de vida dos santanenses.
O Estado tem a sua secretaria de Recursos Hídricos. O braço executor das suas ações é o IMA. Em Santana, elaborada as leis municipais do meio ambiente pela Câmara, a Prefeitura poderá criar a Secretaria de Meio Ambiente e fundar seu próprio órgão semelhante ao IMA (estadual) com funções municipais. Chega de estar se escorando nos outros e adotando conselhos tronchos. O senhor José Vaz, presidente da Câmara, também já ouviu a AGRIPA e sabe da urgência em elaborar essas leis. É só convocar os seus pares e acabar de uma vez com esses constrangimentos burocráticos que só trazem prejuízo para Santana do Ipanema, inclusive na extração mineral. Os senhores vereadores não podem perder “o bonde da história”. O IMA poderá sim, ajudar na elaboração das leis e a AGRIPA, defensora do meio ambiente, faz questão de participar. Chega de tanto atraso, minha gente.
Negro Benedito depois de velho, já encabeçando os sessenta, botou na cabeça que era vidente. E se inventou de atender o povo, fazendo consultas sobre passado, presente e futuro. Essa história que vou contar aconteceu já faz certo tempo. Como tudo começou, não sei direito, por isso vou contar de onde, e até onde sei. Foi mais ou menos assim, primeiro conheci Damião, filho do velho Benedito. Damião não passava de um menino como eu. Nós nos tornamos amigo, vez outra ia ele a minha casa, e eis que um dia coloquei os pés dentro da casa dele. Senti um calafrio. Ali descobriria a história da vidência de seu pai.
Seu Benedito, era assim, parecia um preto velho desses que só se encontra originalmente na Bahia, no pelourinho ou na Baixa do Sapateiro. Se ao contrário fossemos nós o adivinho, diria que Seu Benedito teria vindo duma comunidade quilombola, nascido numa família prolífera, e que teria terminado de ser criado por um rico fazendeiro. Muito sofrera depois que a mãe morrera, e para sobreviver teve que ser engraxate, vender picolé, fazer frete de carro de mão, teria cuidado de animais na intendência, no vigor da idade fora estivador, conseguira um aposentadoria e agora estava ali, na minha frente. Devidamente trajado de branco, trazia uma quantidade razoável de colares cheio de contas coloridas, no pescoço, e outra dezena de amuletos e patuás, deles que descia até sobre sua imensa pança negra cujos botões da blusa branca de mangas compridas, punha à mostra. Uma barba branca, combinando com a carapinha, escondida em baixo de um chapéu de massa branco. Na beiçola um charuto, ora aceso, ora apagado, porém sempre fedorento. Os olhos do negro, estes mereciam uma descrição especial, primeiro porque eram enormemente incomuns. Além do que eram incomumente avermelhados. Projetavam-se para fora do globo ocular, como se a qualquer momento fossem pular fora da caixa. E se saltassem por certo me atingiria, em cheio, aumentando ainda mais meu medo.
A casa era simples, misturava paredes de taipa com outras de alvenaria, dando um aspecto surreal à construção. A entrada havia uma pequena sala de estar, que mal acomodaria três pares de pessoas. O teto baixo daria pra ser facilmente alcançado caso, um homem mediano, estirasse o braço. As paredes repletas de diversos quadros de santos da igreja católica, porém havia imagens pagãs. Numa mistura de crenças e misticismo. A gravura azulina de Iemanjá, flutuando sobre as águas do mar, repleto de flores, ladeada da imagem de São Pedro. O santo com a chave do céu, de rosto ríspido, de cara fechada, volvendo seu olhar aos céus, como se reprovasse aquele ecumenismo caboclo.
Olhando com aquele olhar de causar calafrio. Como se olhasse através da gente, o velho Biu teria dito: “-Ô! Esse menino! O que veio fazer na minha casa? Não precisa dizer! Eu sei de tudo. Você é amigo de meu filho, e só. É! Mas tem muitas coisas por trás de tudo isso. Coisas que vocês não sabem. Ele está aqui! O tempo todo está bem aqui. Ele me persegue.” Sobre o que estava falando não entendi patavina. E continuou: “-Venha…Vou lhe mostrar!” E me conduziu a um dos quartos da casa, que deu pra perceber tratar-se da sala das consultas. Havia uma cortina vermelha ao fundo. Uma mesa forrada de branco ao centro, à medida que meus olhos foram se acostumando com a penumbra, pude perceber diversas estatuetas espalhadas pelo chão. Uma delas era de um enorme cachorro da raça Collie, igual a cadela Lessie do filme, em posição de sentado atingia a cintura de um homem. Os olhos pareciam ter vida, pintados com tinta fosforescente. Noutro canto a estatueta do capeta, vermelho com seu tridente sorria maliciosamente. Centenas de ex-votos. E velas de cores variadas, algumas acesas. O cheiro que impregnava o ar era de um incenso nauseabundo. Nunca esquecerei aquele cheiro. Não teria Seu Benedito, feito previsões sobre a vida, do menino que acabava de conhecer. Porém algumas coisas interessantes teriam ocorrido ali, talvez isso, fosse o que interessasse aqui ser contado. Como se tivesse se sentindo perseguido, Seu Benedito ficou visivelmente perturbado. Agitando os braços para todos os lados, e dando voltas sobre si mesmo, sem fixar os olhos em lugar algum, começou a falar alto:
“-Ele está aqui. Eu o invoquei e agora não tenho mais como me livrar dele! Se alguém quiser ficar rico ele ajuda! Mas cobra um preço muito caro! Ele não me deixa em paz! Não queira nem saber de quem estou falando. Só precisa saber que é ruim! Dia e noite sem ter paz. Eu só não morri ainda porque tenho o corpo fechado. Não era nem pra dizer isso. Mas já disse.” Antes de sair da casa, dona Maria, a mulher de Seu Benedito, olhando com olhar enigmático disse: “-Você viu? Ele está doente. Ele invocou os espíritos das trevas, pediu pra lhe dizer, as seis dezenas da loteria. Andou fazendo algumas oferendas pra eles, mas não serviu. Eles sempre querem mais. Agora está perturbado.”
No dia que Seu Benedito morreu fui ao sepultamento. O esquife ficou exposto dentro da capelinha do cemitério, intensamente repleto de luz e calor do sol. A luz quase que cegava. O calor sufocava. Além dos poucos familiares, mais ninguém. Agora velas brancas velavam, flores e o forro do pequeno altar. Em solidariedade ao amigo, estávamos ali, ele não chorava. Apenas tentava consolar sua mãe. Só na hora de fechar o caixão criei coragem pra me aproximar. Um rosto de sobrancelhas serradas, de quem morrera com angústia e muita dor.
Seu Belo também estava ali. Seu Belo era dono da bodega, que ficava perto da Cadeia Pública, que ficava virada pra praia. Seu Belo nunca conheceu Seu Benedito, mas estava ali porque era da opinião de que aquele homem precisava descansar em paz. Nenhum dos que ali estavam via Seu Belo. Ele não fazia questão de ser visto, era melhor assim. Fez sua oração pela alma daquele homem, e se foi. Lembro quando ele um dia me disse: “-Na vida nós fazemos escolhas. É preciso ter serenidade, paz no coração. Um dia você nasceu. Nada acontece à toa. Como não é à toa que você está aqui, conversando comigo.”
A uma ensolarada manhã de segunda-feira. Por volta de sete horas, do dia primeiro de março. Do ano em que morrera a princesa Eleonora de Aragon, filha do rei Fernando I de Espanha, Sandro nasceu. No seio de uma família pobre, de camponeses. A um humilde casebre, ao lado da ponte velha, as margens do rio Arno, na velha Florença Sandro veio ao mundo. O pai Felipe Mariano muito comemorou a vinda de mais um varão, nascido em plena primavera. Sandro jamais sonhara, porém se tornaria um dos maiores pintores da renascença. E tão belamente pintou o nascimento da Vênus de Milo.
Eu sabia sobre todos os combates da Segunda Grande Guerra. As batalhas do Pacífico, do norte da África, dos maquis, nomes de comandantes, armas utilizadas como tanques, aviões, navios, submarinos e as estratégias usadas pelos respectivos comandos. Era um apaixonado pelo tema e gostava de discutir com meus colegas bem informados. Entretanto nunca quis saber de farda de espécie alguma. Foi com surpresa, portanto que recebi a notícia que teria que me apresentar ao tenente do exército em Santana. Os jovens santanenses estavam isento do serviço militar obrigatório, mas fui atender o chamado verde. O tenente era farrista, gostava de falar, discursar difícil e pedir cágados do criatório de meu pai para suas farras que não tinham fim. Mesmo assim não teve consideração nenhuma. Vendo que eu passara do prazo de me apresentar, apenas poucos dias, nem quis saber. Com sua cara falsa e de pau, lascou um carimbo no documento que eu iria portar com a palavra “REFRATÁRIO”.
E como eu passara a ser um peste refratário, teria que me apresentar em Maceió no quartel do 20º BC para exame de saúde e servir o exército ou não. Exame superficial preliminar, outra carimbada, dessa vez nas costas com a letra “B” e uma ordem enjoada àquela multidão: “Todo mundo nu e na fila”. Antes de ser constrangedor, era uma maneira de humilhar os futuros recrutas e os estudantes civis. Sem alternativa fui completar a fila dos cabras pelados. Não havia como esconder nada. Com u’a mão se cobria a bunda, com a outra se escondia o pênis. Mas, essa estratégia não funcionava, compadre. Pense numa fila de homens pelados. Uns ficavam sérios e outros, não podendo escapar à humilhação, tornavam-se engraçados apontando, bundas, pênis e barrigas, derretendo-se em gargalhadas. Todos jovens de 18 anos. O pênis grande ou de tamanho razoável não deixa de fornecer maior confiança ao macho, mas ali não tinha disso. Eram apontados tanto à falta quanto o excesso. Tinham gozadores que quase quebravam o tronco de tanto gargalhar.
Eu estava ali pensando em perder um ano de estudos, fazer uma coisa que nunca havia sonhado com ela e aguardando com ansiedade a volta da minha roupa. Sem remédio nenhum, relaxei e encarei o fato como um naturalista. Felizmente, diante de tantos, não fui apontado em nada, nem na vanguarda nem na retaguarda. O meu corpo dava para se apresentar bem e passou isento no rol das gozações. Mas ainda hoje, quando lembro o tal tenente farrista, comedor de cágados, lembro também da FILA DOS HOMENS NUS.
O assassino, bandido, gênio militar, Lampião, gostava de cortar caminho por Alagoas. O costume era entrar pela região serrana do estado ─ Mata Grande e Água Branca ─ e depois seguir por um dos dois roteiros: descia em direção ao rio São Francisco e dali subia para Pernambuco, entre Cacimbinhas e Palmeira dos Índios ou descia dos dois municípios primeiros e tirava direto. Quer dizer, marchava pelo raso de caatinga que correspondia a Inhapi, Carié, Olho d’Água do Chicão (atual Ouro Branco), até Águas Belas e região do Pau Ferro (hoje Itaíba). Naqueles lugares tinha protetores de peso como os coronéis Audálio e Gerson Maranhão.
A três léguas do Pau Ferro, no sítio Saco, morava o senhor João Leite de Carvalho e sua esposa Maria Leite de Carvalho. Quando precisava, o senhor João ajudava no trabalho da fazenda Angico Torto, de Gerson Maranhão.
Quando Virgolino se separava da companheira, Maria Bonita acoitava-se na casa do senhor João Leite, onde nunca lhe faltou nada. Mas Lampião não conhecia João Leite que por ser gago e tato, também era conhecido como João Gago.
Certa feita João foi ao mato extrair varas para fazer uma casinha de taipa. Durante o seu trabalho foi cercado por um grupo de Virgolino Ferreira, comandado por ele mesmo. O chefe prendeu imediatamente o agricultor e começou a interrogá-lo. Gago e tato e ainda mais, nervoso, o senhor João com sua fala emperrada, distorcida e incompreensível, irritava Lampião que pensava que o homem estava espionando a área para levar informações às volantes. Então, o bandoleiro começou a bater no agricultor, aplicando-lhe tremenda surra com a folha do punhal. O gago durante o aperreio gritava que “parasse com aquilo, Lapial!”. Quanto mais implorava, mas Lampião batia.
Maria Bonita que estava na casa do agricultor, ouviu os gritos, justamente com as outras pessoas, quando dona Maria Leite disse correndo em direção à mata: “Aquilo é João e eu vou lá”. Quando Maria Bonita riscou em cima da bagaceira, berrou para o amante que não batesse no homem que a vítima era o dono da casa onde ela costumava se hospedar. Lampião ficou atônito, guardou o punhal e ele mesmo disse: “Pois ele escapou por um triz, já ia sangrá-lo”.
João Gago viveu muito tempo ainda e, dentro do seu conformismo, continuou agora servindo aos dois, Maria Bonita e Lampião.
O neto do senhor João Leite, Lourival Carvalho, contou o episódio, mas não soube dizer se depois das lapadas de punhal o gago conseguiu o milagre de ficar bom da língua.
* IMPRESSÃO EM LIVRO SÓ COM AUTORIZAÇÃO DO AUTOR. DIREITOS AUTORAIS.
Desde quando eu era menino que acompanho essa péssima novela, muito pior do que as piores da televisão: o anúncio da cobertura asfáltica do Entroncamento Carié, sertão de Alagoas, à cidade de Inajá, Pernambuco. O nome Carié marcava apenas um lugar deserto, perto da entrada de uma bonita casa de fazenda e nada mais. Como forma uma encruzilhada, em sentido norte-sul liga Garanhuns (Pernambuco) a Paulo Afonso (Bahia) e, em sentido leste-oeste liga Santana do Ipanema (Alagoas) a Inajá (Pernambuco) para dizer apenas das cidades mais perto do entroncamento. Acontece que o trecho Carié-Inajá foi tema dos melhores novelistas da política alagoana. Muitos votos daquela região ajudaram à gravata italiana de muitos demagogos. Uma casinha é erguida no Carié, mais outra casinha, um bar, uma churrascaria, hotel, borracharia e outras casitas mais vão se chegando à beira da estrada, formando hoje o povoado conhecido.
Do Carié a Inajá, a estrada de barro continua ao sabor dos tratores dos grandes, quando resolvem mostrar serviço. E os produtores rurais vão ficando cada vez mais acuados com as condições de poeira e lama por onde transitam suas mercadorias. Da região sai o feijão, milho, melancia, leite, queijo, rapadura, frutas, carnes e diversos outros produtos que ajudam no abastecimento do estado. Ultimamente os assaltos na BR-316 pelada e nos bancos do Alto Sertão, soam como imensas gargalhadas ao pé do ouvido do poder público.
O senador Fernando Color de Melo anuncia um benefício grandioso, se realizado. Mesmo que a licitação saia hoje no Diário da União, ela demora. Depois vem a verba e as chateações dos cortes em nova etapa do faz não faz. Muito bem, pensemos nas coisas boas, num sonho rodoviário de Maceió a Inajá em uma marcha só. Mas por que o senador não asfaltou o trecho de apenas 49 quilômetros quando era presidente e casado com uma filha da região em tela? Sim, é verdade, antes tarde do que nunca, mas tudo isso ainda é uma questão de crença.
O matuto cruza aquela estrada todos os dias. Ainda vê raposa, gavião, teiú, jumento, furão e jaburu, mas um tiquinho só do asfalto peleja e não encontra. Esse bicho raro é generoso em outros lugares, mas na estrada Carié-Inajá, faz bunda de ema e RASTRO DE COBRA.
Ontem vivi dois momentos diferentes, um às luzes da manhã outro na parte vespertina. Levado sobre uma pesquisa no Bairro Lajeiro Grande voltei espiando o muro do Ipanema Atlético, time da cidade. As marcas de propaganda de várias casas comerciais, vão virando pinturas de museu, relembrando os bons tempos do Canarinho do Sertão. Portão escancarado, convite aos passantes que têm e não têm o que fazer. Entrei desconfiado como herege na igreja e pude notar o verdume da grama, das árvores, da serra Aguda como pano de fundo. Estavam ali os blocos de cimento a guisa de arquibancada, o aramado retorcido, os nomes gigantes nas cabinas de rádio. Dois times de brincantes maltratavam a bola no estádio vazio melancólico. O tempo abafado fazia colar às costas à camisa sob o céu azul rajado de branco. Onde anda o Ipanema que não canta mais sequer na segunda divisão? Mais uma vez o “canarinho” mergulha na tristeza de uma solidão inglória. Fogem os empresários, dão às costas os políticos, capengam os salvadores. E o altivo timão de outrora vai batendo com a bengala nos obstáculos da vida. Na descida ao fundo do poço todo santo ajuda. No espocar de foguetes é que são elas.
Foto: Agência Brasil
No contraste tristonho matutino, explode alegria no Mané Garricha entre a tarde e a noite venturosa. As cores se misturam no estádio e Marta vai comandando um espetáculo costumeiro e delirante. É o torneio internacional que faz a vibração do público para Chile, Brasil, Escócia e Canadá. A seleção brasileira feminina disputa com a chilena o título do torneio e consegue um 5 x 0. Mais uma vez campeã, exulta a seleção, festeja o povo brasileiro.
Mas, aqui na minha terra, aqui na Rainha do Sertão, aqui onde o canário trilava altaneiro, foi tomado pelas cinzas. As mesmas cores que marcavam o orgulho nacional no Estádio Mané Garrincha, desbotaram com tantos obstáculos no alto da Camoxinga, da Santa Sofia, do Lajeiro Grande… De Santana do Ipanema. A cidade, sem entender direito, consternada com a ausência do seu time no campeonato, sem rever o verde e amarelo nos embates, desencanta e murcha com um IPANEMA EM PRETO E BRANCO.
Clerisvaldo B. Chagas, 23 de dezembro de 2013 Crônica Nº 1110
Nas anedotas do sertão nordestino, têm casos em que o cabra realmente morre de ri. E pegando a comicidade de frase de um caso longo, o sertanejo fora da terra costuma perguntar ao conterrâneo que chega: Lá pra cima chove? Esse lá pra cima se refere à altitude do sertão vista do litoral. Traduzindo tudo: No sertão estar chovendo?
Saindo de Santana do Ipanema e contando os velhos chavões para os da capital, sobre a seca braba, vamos repetindo: Vaca dá leite em pó e as galinhas estão comendo pipoca. As donas de casa jogam o milho no terreiro e antes que ele caía ao chão, vira pipoca devido à temperatura. Por trás da parte cômica, preocupação com o gado, à pastagem, à morte dos animais. Vemos as usinas produzindo e armazenando bagaço de cana para vender aos sertanejos. A preocupação aumenta pela falta d’água nas torneiras do interior e, o céu azul e liso não traz esperanças nenhuma. Mas eis que à noitinha na varanda do apartamento, sobe uma lua danada de bonita. Lá longe ainda em direção nordeste, o relâmpago dá sinal de vida. Esfrego os olhos sem acreditar. Serão apenas reflexos dos faróis da noite! Procuro em vão um matuto igual ao mim para ansioso perguntar à moda tão distante: Pra cima chove?
No outro dia embarco para a minha terra e a pergunta da noite anterior vai confortando a alma. Estar chovendo muito em Santana do Ipanema. Toró brabo, diz um sujeito, após ouvir o celular. E o tempo nublado da capital até Dois Riachos vai fechando, fechando, e, o carro com ar ligado e a chuva gradativamente forte vai dando aspecto de inverno ao sertão de meu Deus! Nuvens pesadas pairam sobre as serras da Lagoa, Gugi, Macacos… Velhas conhecidas nossas. A Rainha do Sertão e todo o município confirmam as informações e a meteorologia. É muita água dos céus, meu camarada! Dessa vez o Bairro Lagoa do Junco, formou de fato uma lagoa à beira da BR-316, parte de cima escorrendo sobre a pista.
Pronto! A vaca não vai mais produzir leite em pó. As galinhas deixarão de comer pipoca apressada e eu não mais precisarei perguntar aos velhos conterrâneos: Lá PRA CIMA CHOVE?
A história de um lugar pode morrer se não tiver alguém dedicado a consolidá-la e transmiti-la. No bojo dos vários nuances que se apresentam, importantes são as denominações populares dos pontos de referências, tanto rurais quanto urbanos. Daqui de Maceió vou relembrando os nomes de algumas elevações que circundam Santana do Ipanema. O serrote do Gonçalinho é sempre um monte que procuro trazer em todos os meus escritos sobre Santana. O próprio escritor Oscar Silva contava um fato escabroso acontecido naquele serrote. Após a instalação de antena para rádio e televisão, o povo passou a chamar o monte de serra da Micro Ondas ou do Cristo porque alguém ali colocara uma pequena estátua do Cristo. O morro da Goiabeira virou serrote do Cruzeiro desde a passagem do século XIX para o XX, quando ali ergueram um cruzeiro de madeira para marcar a passagem de século. E, na parte norte, o morro do Pelado passou a se chamar Alto da Fé, quando o prefeito da época, Genival Tenório, inventou colocar três imagens religiosas no topo e que não deu certo.
Mesmo assim, para que a população não esqueça a sua história vou sempre dizendo sobre o Gonçalinho, Goiabeira e Pelado.
Os outros montes, não. Continuam chamados como os nossos antepassados chamavam-nos: Serra Aguda, Remetedeira, Poço, Camonga, Macacos, Gugi, Pau Ferro, Caracol, Lagoa, Bois, França, Severiano, Brás e outros. Quanto a atual reserva ecológica do cidadão Alberto Nepomuceno Agra, estava sem referência, até que o senhor José Urbano que possuía terras na região, a denominava serrote Pintado. A exposição esbranquiçada de lajeiro no meio da mata, pintou esse nome.
Dentro da própria urbe, encontramos também lugares que se consolidaram como Alto dos Negros, Cajarana, Cajaranas, Cachimbo Eterno, Bebedouro, Maniçoba, Barragem, Lagoa do Junco e Lajeiro Grande; belíssimas expressões populares que não se deve mexer. Cada expressão é uma história particular que se encaixa no todo da memória santanense.
E para encerrar, lembremos o antigo povoado Quixabeira Amargosa que virou São Félix e nem sequer em placa nenhuma consta a antiga denominação como se fosse coisa pejorativa. Já o povoado Areias Brancas virou Areia Branca, simplesmente porque algum engravatado sem base nenhuma como provam as nossas pesquisas (O Boi, a Bota e a Batina, História Completa de Santana do Ipanema) prova. Ah, juventude! Ah, Juventude! Por que as escolas não passam à TRADIÇÃO?
Os últimos sete dias no sertão de Alagoas foram de calor máximo, daqueles de literalmente cortarem o fôlego. Muita gente passou mal nas ruas, avenidas, praças e igrejas. Céu sem nuvem alguma, Sol torrando cá em baixo. Quando, por acaso, nublava o tempo, não corria vento nem para balançar graveto. O matuto cansava de olhar os horizontes em busca de qualquer sinal indicativo de chuvas. De trovão só mesmo os berros do boi com fome. Relâmpagos, somente povoando os sonhos de verão. Constantemente faltando água nas torneiras e energia fraca passando pelos fios. Nos tanques dos carros-pipas o escândalo pendurado acima dos pneus. A falta d’água nos depósitos das escolas, lares e creches dirigiam novos olhares de socorro para os céus, para os canos, para as autoridades.
Lá em território distante de Santana do Ipanema, O Canal do Sertão em funcionamento, vai distribuindo a felicidade para o sertanejo. E desde que mudaram o roteiro do canal, desde que excluíram o município santanense do benefício, desde que o cão da política futucou a obra que desapareceram misteriosamente os representantes de Santana na linha de frente do canal. A mídia não divulgou nenhuma luta de uma só autoridade da terra pela manutenção do município no roteiro da construção. Entraram e saíram prefeitos e vereadores e nenhum grito, nem um gemido, nem um aviso, nem um apelo em nosso favor. Todos baixaram a cabeça como boi de canga numa covardia sem par, deixando que os grandes articulassem, cosessem e finalizassem para que o município de Santana do Ipanema ficasse fora do projeto redentor. A grande obra esperada por décadas, não encontrou uma só voz dos representantes de Santana, denunciando nada.
O Canal do Sertão segue triunfal por outros municípios. Ninguém consegue um mapa do roteiro, nem na Internet. E os políticos santanenses baixaram à cabeça e fugiram em bandos do campo de luta. E como dizia a professora Helena Oliveira, na sua escolinha de Admissão ao Ginásio: “Ô infelizes das costas ocas!”. Todos abandonaram à trincheira, todos viraram DESERTORES.
Clerisvaldo B. Chagas, 16 de dezembro de 2013
Crônica Nº 1106
Sobre Clerisvaldo Chagas
Romancista, historiador, poeta, cronista. Escritor Símbolo do Sertão Alagoano.
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13 jan
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