Sobre Clerisvaldo Chagas

Romancista, historiador, poeta, cronista. Escritor Símbolo do Sertão Alagoano.


O URSO PRETO DE SANTANA

11 janeiro 2018


Bloco do Urso Preto em Vitória de Santo Antão (Foto: Blog do Pilako. Acervo do IHG)

Os carnavais mais remotos de Santana do Ipanema, no Sertão de Alagoas, foram registrados pelo escritor santanense Oscar Silva no livro Fruta de Palma. Nomes de blocos, masculinos e femininos, cânticos e ações, surgem maravilhosamente narrados. Temos que tenham acontecidos na década de 1920. Mas o bloco carnavalesco mais antigo da minha lembrança é o bloco do urso preto. Um homem vestido de urso acorrentado e seu domador. Conjunto regional tocando (sanfona, pandeiro, zabumba) e grupo não muito grande de foliões bebendo e cantando atrás:

E como foi

E como é

O urso preto

Vem da barca de Noé…

O urso preto (Ursus americanus) é encontrado desde o Alasca ao Norte do México, alcança 2.20 m de comprimento e 1.10 m de altura com um peso até 360 kg. Mas por que foram buscar o animal da América do Norte para os nossos carnavais? Não sei. E lá vai a turma complementando a segunda estrofe:

Todo mundo já dizia

Q’uesse urso não saía

Esse urso anda na rua

Com prazer e alegria…

E repetiam infinitamente os primeiros versos.

O urso do Norte come frutos, nozes, gramíneas, raízes, seiva de árvores, peixes e pequenos mamíferos. Mas o de Santana comia ou come tira-gosto em casa de pessoas influentes e cachaça, muita cachaça. O mais famoso domador foi o dono de farmácia, Cariolando Amaral, chamado Seu Caroula), homem seríssimo com sua gravata borboleta, mas nos carnavais… O “urso” em destaque era o marginal Zé Nogueira. Existe até uma peça engraçada entre o urso, seu domador e uma dor de barriga no animal. Não foi do meu alcance a participação nos carnavais com o coronel Lucena. Depois veio o outro domador, Chico Paes com o urso seu sobrinho, mecânico Josinho, em que existe passagem mais engraçada ainda quando foliões tentaram estuprar o urso.

Depois que os carnavais sertanejos levaram um tombo, nem sei se o urso preto conseguiu sobreviver à dor de barriga e a tentativa de estupro.

Ah! Meu Sertão, meu sertãozinho!

Clerisvaldo B. Chagas, 11 de janeiro de 2018

Crônica 1.821 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

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