Sobre Clerisvaldo Chagas

Romancista, historiador, poeta, cronista. Escritor Símbolo do Sertão Alagoano.


O IPANEMA, TARDE FRIA E A FONÉTICA

16 agosto 2017


Foto: G1 Alagoas

Bons tempos aqueles em que o analfabeto, sapateiro e boêmio Tarde Fria bancou o juiz de futebol entre o time São Pedro e a comunidade do lugar Dorinha Pinto. Chamando os dois capitães para advertir antes da partida, disse o sapateiro: “Hoje aqui o jogo vai ter que ser por dentro da fonética…”.

Meu irmão mais velho que jogou pelo Ipanema e pelo São Pedro, estava no momento e participou da aplicação gramatical de Tarde Fria no futebol. Passado tanto tempo, tentei e não consegui saber onde fica o local Dorinha Pinto. Seria o nome de uma pessoa de referência naquele sítio? Seria o próprio sítio assim denominado? Agradeço demais a quem souber e repassar para nós a informação.

No momento presente em que o São Pedro é apenas uma agradável lembrança e o Ipiranga uma longa hibernação, sentimos os vazios domingueiros do Clube Ipanema que não cansa de amolar as chuteiras. Tantas vitórias e derrotas arrastando multidões para a parte alta do Bairro Camoxinga!

Tardes quentes e fagueiras de vibrações mil com as cores verde e amarela! E lá se vão os ricos e os pobres, os famintos e os fanáticos arrocharem a goela na temperatura braba do Estádio Arnon de Mello. E lá vai o Ipanema, patrimônio cultural da cidade, sem apoio, sem vez, sem horizonte, um Dom Quixote diante de centros fortificados. O santanense entristece sem ter o que fazer nas tardes de domingo. O Canarinho do Sertão nunca mais alegrou o povo e nem o povo ao Canarinho. O que fazer?

O registro fotográfico do estádio se encontra no livro 230, como empreendimento de valor histórico do nosso município. Vez em quando me ponho a rondar a Camoxinga, o Lajeiro Grande, a barragem assoreada e sempre me deparo com o gigantismo do empreendimento que fez a tradição.

Ouço de fora os gritos dos treinos que fazem lembrar o torcedor número 1, Otávio Marchante, rodeando nervosamente o campo aos gritos roucos apresentando os nossos aos advesários: “Esse aí é Joãozinho! Bola rasteira, menino!”. Nem sei se existe no estádio alguma homenagem ao Otávio. Passo espiando o título, o nome faltando letras, a tinta das antigas propagandas abraçando o reboco e um grito saudoso de vitória cortando o ar.

Desço à colina com o pensamento confuso também preocupado com o futuro da equipe bicolor, outrora bandeira da minha terra.

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de agosto de 2017

Crônica 1.715 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

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