Clerisvaldo B. Chagas, 14 de agosto de 2017
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica 1.714
A lembrança é mínima, mas de vez em quando meu pai saía para caçar e tinha preferência pela juriti. Vem à lembrança apenas uma ocasião em que foi à caatinga com o sobrinho Celestino Chagas, marido da saudosa professora particular Helena Oliveira. Vejo-me no quintal da nossa casa diante de bizacos cheios a retirar rolinhas e talvez juritis para depenar e entregá-las a empregada. Lembro-me da rolinha-branca, a que mais havia em nossa área, a caldo-de-feijão que tem as penas marronzinhas e a rolinha-azul. Nunca vi, porém, em minhas andanças pelas matas a rolinha fogo-pagou, a própria juriti e nem asa-branca. Estas eram espécies encontradas mais no alto sertão. E assim meu pai atestava que nenhuma ave era mais saborosa de que a juriti, a columbiforme da família Columbidae e que possui catorze subespécies. Mas isso foi no tempo em que não havia restrições à caça. Época em que o homem se juntava ao cancão, principal predador das pombas sertanejas.
Lampião também teve no seu bando vários cangaceiros apelidados Juriti. Um deles, aliás, ficou conhecido como o mais belo da caterva. O galã da bandidagem.
Sábado último finalmente, fui à caça de Juriti. Estava precisando fazer uns orifícios em cintos de couro e procurei uma das poucas alternativas de consertador de sapatos em Santana. Lá estava o homem debruçado no balcão da sua tenda, vizinha a Igreja Matriz do município. Antes de me aproximar aproveitei sua pose e, da calçada mesmo taquei-lhe uma foto nos seus mais de setenta anos. Foi uma alegria medonha encontrar o sapateiro da nossa infância, mas na mesma humildade, pobreza e lucidez. E ele nadando em emoções falou-me de filho e filha encaminhados para os estudos, das formaturas, das condições elevadas de cada qual, da admiração das autoridades por eles.
E na véspera dos Dia dos Pais, parecia muito que Deus mostrava o exemplo de um. Que satisfação enorme, encontrar mais um personagem da minha adolescência, vivinho da silva. Despedi-me levando no bizaco a imagem agradável do Juriti, sem baleeira, sem chumbo, sem predador. Deixei a sua tenda humilde para aonde o povo corre quando o sapato aperta.
Salve a perpetuação da vida!