É DE SE CHORAR

Clerisvaldo B. Chagas, 29 de julho de 2015

Crônica Nº 1.462

EDIFÍCIO PALMARES. Foto: (Janylle Bezerra).

EDIFÍCIO PALMARES. Foto: (Janylle Bezerra).

Falamos já sobre os antigos prédios de Maceió e do Recife, notadamente, dos que estão localizados no comércio. Mas, sobre os prédios antigos mesmo, inclusive a situação de abandono e risco. Poucos dias depois, houve o incêndio em loja comercial famosa do centro de Maceió e logo após, a depredação do miolo do Edifício Palmares.

Parece mentira o absurdo de uma repartição nacional deixar que um prédio ainda da década de 60, situado em uma das áreas mais nobre e valorizadas da capital chegar ao ponto em que chegou o Edifício Palmares. Edifício muito bonito, por sinal, vizinho à Praça Palmares, centro comercial, cultural e histórico de Maceió, perto de tudo.

Transformada, praticamente, em comércio livre, a praça encheu-se de barracas onde se oferece inúmeros serviços, numa espécie de mercado persa. Por ali, rodeando e cortando a praça, existe um intenso movimento de ônibus, táxis e automóveis particulares que facilita e ao mesmo tempo azucrina os passantes. Ainda vizinho funcionou o antigo e famigerado hotel Bela Vista (hoje demolido) que hospedou as cabeças de Lampião e Maria Bonita na última noite em Maceió, antes do traslado para Salvador. Nas imediações funcionou também o edifício do PRODUBAN e outras repartições estaduais e federais que sempre foram referências na capital.

Por isso ou por aquilo, após o abandono do prédio belo e caríssimo e a depredação, o INSS que se livrar do “cavalo branco”, mas não encontrou ninguém interessado em adquiri-lo. “Será o Benedito!”

“Nenhum interessado em participar do leilão do Edifício Palmares compareceu, na manhã desta terça-feira (28), à sede do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), no centro de Maceió, para arrematar o prédio. Com isso, o futuro do imóvel, que já abrigou diversos órgãos públicos, continua incerto”.

(…) “Ainda assim, por ficar numa área de 8.615m², em pleno centro de Maceió, foi avaliado em R$ 8,98 milhões”.

É DE SE CHORAR…

A MORTE DE LAMPIÃO (IX)

Clerisvaldo B. Chagas, 28 de julho de 2015

Crônica Nº 1.461

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

Vamos resumir em uma crônica, cerca de 20 páginas ricas em detalhes.

28.07.1938. (Quinta-feira).

Segundo o autor da tese do envenenamento.

Madrugada ainda quando Maria Bonita faz o café, Lampião e mais cerca de três cangaceiros, tombam ao prová-lo. Lampião caindo sentado na rede, já sem vida, começa certo alvoroço no acampamento. As três volantes estão em suas respectivas posições, quando o intenso tiroteio, inclusive com metralhadoras, acontece para dentro da grota. Os cangaceiros, desesperados não sabem o que fazer. Escuro, frio, neblina e fumaça. Alguns atiram e fogem, outros resistem e morrem quando a grota dos Angicos vira um inferno repentino.

No entrevero, que vai amainando, estão mortos alguns cangaceiros e outros feridos e ainda vivos, vão sendo torturados até a morte. Entre os que ainda estão com vida, Maria Bonita é degolada viva. Após o saque ao acampamento, o comandante ordena que cortem as cabeças dos cangaceiros mortos. Houve uma cena dantesca narrada pelo cangaceiro “Paturi” que se escondeu na pequena furna e tudo presenciou.

Entre os mortos do bando estão os cangaceiros: Lampião e Maria Bonita, Quinta-feira, Mergulhão, Enedina, Luiz Pedro, Elétrico, Moeda, Alecrim, Colchete II e Marcela.

Da parte da polícia foi morto o soldado Adrião Pedro de Souza e ferido o comandante das três volantes, tenente João Bezerra.

Os outros cangaceiros conseguiram escapar, diante da confusão, neblina e fumaça.

As cabeças dos cangaceiros mortos foram salgadas e colocadas em sacos, pendurados em caibros e transportadas pelos soldados até o rio São Francisco. Os corpos dos bandidos eliminados ficaram amontoados sob pedras.

Os sacos com as cabeças subiram o rio em canoa até à cidade alagoana de Piranhas de onde partiram as volantes para o ataque. Ali houve muita festa das tropas e do povo, desfiles de soldados pelas ruas e exposição macabra das cabeças na porta da prefeitura.

As cabeças dos onze cangaceiros mortos foram exibidas ainda em várias cidades como Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios, Maceió e em alguns povoados.

Com a morte do chefe, os cangaceiros que escaparam da hecatombe tomam três destinos diferentes: uns se entregam à polícia, outros procuram fugir para destinos como São Paulo e, outros ainda, bem poucos, continuam perambulando sem rumo certo pelas caatingas.

Oficialmente é considerado extinto o fenômeno Cangaço no Nordeste, consolidando-se com a morte de Corisco, dois anos depois.

· Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcelo. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

FIM DA SÉRIE DE NOVE CRÔNICAS.

LAMPIÃO, O CERCO FATAL (VIII)

Clerisvaldo B. Chagas, 27 de julho de 2015

Crônica Nº 1.460

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

Tentaremos resumir 27 páginas em uma crônica.

27.07.1938. (Quarta-feira).

São cinco frentes nos acontecimentos.

Joca do Capim, com raiva da esposa por um motivo e de Pedro de Cândido, por outro, quer entregar o bando às volantes. Em Piranhas, dia de feira, João Bezerra tem partido e, Joca fica aguardando a chegada de Aniceto.

No coito, Lampião pede a Durval para vir no dia seguinte, levar a máquina de volta e receber o dinheiro das carnes consumidas. Somente bodes para levar foram 36.

Em Piranhas, Pedro combina com Bezerra ou na noite anterior ou naquela manhã sobre o envenenamento. Envia um telegrama para ele mesmo como se tivesse sido chamado para o Moxotó. Os coiteiros vão contar a Lampião.

À tarde, chega Aniceto em Piranhas e logo Joca conta tudo e manda apertar Pedro de Cândido. Aniceto passa telegrama para Bezerra dizendo que o boi está no pasto.

Combinam-se para se encontrar em Pedra. Ali se encontram Aniceto, Bezerra e o aspirante Francisco Ferreira que tem volante pronta e é espião do governo contra o tenente João Bezerra. O aspirante discute com Bezerra que não quer levá-lo. Chega Domingos dos Patos trazendo recado de Pedro de Çândido.

Depois do meio-dia Pedro foi levar a carga envenenada a Lampião, com a ajuda de Durval.

Perto de Pedra, após a discussão, as três volantes partem juntas para Piranhas. Levam metralhadoras emprestadas. Chegam a Piranhas já à noite e com chuva. Arranjam três canoas e descem o rio, mas só os comandantes sabem para onde.

No coito um vento frio encanou pelo grotão. Os bandidos se recolheram no escuro e somente uma vela permanecia acesa na barraca de Lampião. Maria Bonita, emburrada com Lampião, conversava com Cila em uma pedra.

A tropa manda buscar Pedro de Cândido e que forçado, vai guiá-la até a grota, juntamente com o irmão Durval.

Após várias peripécias, as três volantes estão diante do coito ainda antes de amanhecer o dia, guiadas por Pedro e Durval. As volantes dividem-se em várias frentes e surpreendem os bandidos ainda com escuro, frio e neblina.

É feito o ataque que termina com onze cangaceiros mortos e um volante. Lampião e Maria Bonita desencarnaram.

*Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

Amanhã: última crônica da série.

LAMPIÃO E AS COMPRAS (VII)

Clerisvaldo B. Chagas, 26 de julho de 2015

Crônica Nº 1.459 

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

“26.07.1938. (Terça-feira).

Dia importante dentro e fora do coito.

Pela manhã, chega Manoel Félix somente com as agulhas. Não pode comprar o resto das coisas porque a polícia estava de olho nele”.

Pedro de Cândido está presente. Lampião entrega uma lista de compras a ele, inclusive a mescla. Manda-o vigiar a polícia. Pedro vai a Piranhas”.

O tenente João Bezerra está em Mata Grande e o sargento Aniceto em Pedra. Recebem telegrama de dona Cyra, esposa de Bezerra, dizendo sobre cangaceiros vistos na região de Piranhas.

Em Piranhas, Pedro faz as compras e não vê Bezerra nem Aniceto. Cochicha com a polícia e é visto por Eráclito. Disfarça mandando-o levar a mescla, o restante não.

No coito chegam o subgrupo de Corisco e o de Labareda. Festa de alegria.

Eráclito fala mal de Pedro, Corisco manda Virgolino matar a Pedro de Cândido, Lampião ameniza.

“À tardinha, Luiz Pedro cortava a mescla para calça, culote e bornais de José. Lampião mandou Vicente e Manoel Félix buscarem a máquina de costura na casa da mãe de Pedro de Cândido, ali nas Forquilhas, do outro lado do morro das Perdidas”.

Corisco não quis dormir ali e retirou-se para a fazenda do Velho Bié; Labareda foi dormir na fazenda Cuiabá, longe duas léguas. Os dois não confiaram no lugar em que havia apenas uma entrada, segundo eles. Moita Brava, alegando indisposição pediu para se tratar fora.

O tenente Bezerra chegou a Piranhas à noite.

Pedro havia entregado um bizaco de balas a Lampião com seu irmão Durval, mandado por Bezerra antes de sair de Piranhas. O autor Maciel diz que foi na quarta, dia de feira em Piranhas quando o bizaco desceu com outras mercadorias.

“O entendimento sobre os últimos preparativos para o veneno (se houve) deve ter acontecido na noite da terça, quando Bezerra chegou a Piranhas, ou na manhã da quarta, antes de deixar à cidade”.

· Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

Continua amanhã.

LAMPIÃO RECEBE A VISITA DO SOBRINHO (VI)

Clerisvaldo B. Chagas, 25 de julho de 2015

Crônica Nº 1.458

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

“25.07.1938. (Segunda-feira).

Chega José, Sobrinho de Lampião, 17 anos, filho da irmã mais velha, Virtuosa. Viera de Propriá, onde conversara com seu tio João Ferreira. Contou as perseguições à família e que ele estava crescendo. Lampião lembra a ele que há dois anos, seu irmão mais novo e seu cunhado também haviam entrado no cangaço pelo mesmo motivo, e que este era o 6º Ferreira.

Lampião e Maria ajudam a José a armar a rede no grupo de Balão. Depois ele vai para o cimo do morro das Imburanas.

Lampião encarrega Manoel Félix, coiteiro irmão dos outros dois, Erasmo e João, de comprar agulha, linha, chapéu de couro e cinco varas de mescla, em Piranhas, parece que para fazer a roupa de José”.

A chegada de José atrasa a partida de Virgolino em um dia, o que seria fatal para o chefe de bando como se o próprio destino já tivesse de plano traçado. Lampião já estava descansando no riacho desde o dia 21. Como a grota da fazenda Angicos não estava muito distante do rio São Francisco, sua permanência no lugar ia ficando cada vez mais perigosa, mesmo com a confiança em está cercado de coiteiros. Pela frente, o rio era bem movimentado e alvo da sua vigilância com subgrupo de Relâmpago, mas que terminaria sendo completamente inútil. Por trás, havia a fazenda Logradouro do coiteiro Júlio Félix e outras que davam para o interior.

Para visitar Lampião não chegavam somente os coiteiros, mas outras pessoas que se interessavam em negociar com o bandido, informar, levar presentes ou simplesmente vê o homem de perto. Geralmente essas pessoas apontadas como de confiança, eram introduzidas no acampamento pelos próprios coiteiros como seus amigos.

Além disso, as feiras de Pão de Açúcar e Piranhas representavam maior movimento de canoeiros e barqueiros nas imediações, bem como cavaleiros nas terras áridas e pedregosas que margeavam o Velho Chico.

Manter segredos da sua permanência por ali, mesmo com seu aparato, parecia impossível.

· Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

LAMPIÃO: OS CAÇUÁS DAS ENCOMENDAS (V)

Clerisvaldo B. Chagas, 24 de julho de 2015

Crônica Nº 1.457

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

“24.07.1938. (Domingo).

Maria Bonita chora muito, nervosa, recostada a Lampião. Os dois sentiam o fim através das previsões de um vidente de Umã. Desde 1929 que Lampião tinha pressentimentos.

Os mais íntimos de Lampião sabiam nas duas margens do rio São Francisco, que Maria Bonita havia ido a médico em Propriá; não sabiam, porém, qual era a doença. Depois, também poucos souberam que era somente nervoso e nada mais.

Por aí se vê que Lampião estivera antes em uma das fazendas de Antônio Caixeiro (SE), aí convocara o bando inteiro para Angicos (SE), atravessara o rio para Alagoas, serra de São Francisco (AL) para despistar, depois voltara para Sergipe. AA.

Neste domingo, dia 24, para ninguém vê, Durval foi abrir, salgar e enxugar a carne, de canoa, no meio do rio. Depois de pronta, levou-a para Lampião e a ofereceu de presente. Sem aceitar, o cangaceiro pagou a posta de carne com cem mil reis. Como o boi inteiro tinha custado noventa e dois mil reis, o rapaz pensou que se Lampião demorasse mais com um negócio daquele, daria para qualquer um muito dinheiro (segundo seu depoimento). (Ótima carne, régio pagamento).

As coisas, carne e as outras encomendas, chegam num jegue com dois caçuás. As encomendas foram compradas por Erasmo Félix e, Durval teria feito as entregas no domingo à noite”.

Prossegue Lampião e seu bando acampados na grota da fazenda Angicos, de propriedade da família de Durval. O que Virgolino precisava da fazenda, usava para pagar quando se fosse retirar do coito a exemplo de bodes, cabras e cabritos. Quando queria complementar seus alimentos ou fazer uso de algum objeto de fora do coito, usava os coiteiros para compras em Piranhas ou em Pão de Açúcar, cidade alagoanas.

Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

LAMPIÃO, CONHAQUE E CARNE-DE-SOL (IV)

Clerisvaldo B. Chagas, 23 de julho de 2015

Crônica Nº 1.456

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

23.07.1938. (Sábado).

O leitor viu que Lampião acampou na grota, cedinho, do dia 21. Mandou chamar o futuro coiteiro Durval, no dia 22 e com ele conversou. Você viu também que Virgolino atravessara o rio com 18 pessoas acomodadas em três canoas. Quando acampou foi com quarenta pessoas, supondo-se que outros subgrupos aguardavam nas imediações.

Naquele sábado, porém, dia 23 de julho de 1938, faltando apenas cinco dias para o seu fim, o chefe do bando aguarda a volta de Durval no esconderijo daquela grota na fazenda Angicos.

“Durval mata os bois e nada diz ao irmão Zezé e nem a ninguém. Após a matança, à tardinha, Durval volta ao coito, como Lampião pedira. Lampião pergunta por notícias dos macacos. Ele diz que não tinha ido falar de nada. Lampião indaga se conhece o tenente Bezerra. Responde que conhece muito.

─ Você conhece um homem chamado Pedro de Cândido?

─ É meu irmão.

─ Seu irmão?

─ É meu irmão.

─ Ah, tá certo!

Lampião diz que abateu uma cabra para comer. Mostra o couro e diz que tudo que utilizar na fazenda será pago. Encomenda a Durval boa manta de carne-de-sol, 01 cantil e 06 litros de conhaque marca ‘Cavalinho’.

Durval teve medo de olheiros e recusou o pedido das compras fora à carne. Lampião mandou que ele procurasse o coiteiro Erasmo Félix, irmão de outros coiteiros: Manoel e João Félix”.

O jogo ativo da espionagem é grande por parte de todos: cangaceiros, coiteiros e volantes. Os coiteiros não podiam vacilar em nenhum momento, pois poderiam ser trucidados por cangaceiros ou pelas volantes de olho no rio.

· Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

Continua amanhã.

LAMPIÃO MANDA CHAMAR DURVAL (III)

Clerisvaldo B. Chagas, 22 de julho de 2015

Crônica Nº 1.455

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

22.07.1938. (Sexta-feira).

“Lampião mandou chamar Durval Rodrigues Rosa, irmão dos coiteiros Pedro Rodrigues Rosa (Pedro de Cândido) e Ozéas, na propriedade Forquilha, ali perto, na casa da mãe deles, viúva, do outro lado do morro das Perdidas, perto da foz do riacho Forquilha com o São Francisco.

Durval Rosa (Durval Rodrigues Rosa) e seu irmão Pedro de Cândido, filhos do falecido Cândido Rodrigues Rosa e Guilhermina, eram proprietários da fazenda Angicos, onde Lampião se acoitara e foi morto. Durval era muito novo ainda, com dezesseis anos e ajudava os irmãos: Pedro, na padaria e seu José (Zezé) nos negócios e na matança de boi que ele vendia na feira”.

O rapaz tangia uns bois do seu tio, para matar e vender na feira semanal de Pão de Açúcar. Foi cercado por um grupo de cangaceiros chefiado por Zé Sereno. Levado à presença de Lampião, ficou impressionado com o ouro que brilhava do chapéu e dos cordões do bandido. Lampião indagou:

─ Sabe com quem tá falando?

─ Não senhor.

─ Já ouviu falar em Lampião?

─ É o capitão Lampião?

O rapaz diz que é marchante, vai matar uns bois para vender…

Lampião indaga se sabe a regra do bom viver. Durval diz que não sabe e Lampião diz que: ouvir, vê, calar é a regra do bom viver porque em boca fechada não entra mosca. Indagou mais e disse:

Tá certo. Olhe aqui, se eu souber que você chamou uma volante para botar em cima de mim, você morre! Da sua raça não fica nem pinto que eu não deixo. Se você sair daqui e a volante lhe pegar, não sofra não, diga onde nós tá, porque cangaceiro é pra morrer no mato, nasceu para isso. Só não vá chamar. Se tiver tempo de me avisar, lhe agradeço muito! E amanhã volte de novo.

“Durval garantiu que assim o faria. Foi embora e entregou os bois em Entremontes, ao irmão Zezé”.

* Baseado no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió,Grafmarques, 2012.

LAMPIÃO ACAMPA NA GROTA DOS ANGICOS (II)

Clerisvaldo B. Chagas, 21 de julho de 2015

Crônica Nº 1.454

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

O bando de Lampião chega à grota da fazenda Angicos, ao amanhecer. Armam acampamento assim: Em baixo, 03 subgrupos no leito seco do riacho Angico ou Ouro Fino. 01 subgrupo no alto do morro das Umburanas à direita do riacho.

A distribuição fica assim:

Subgrupo de Lampião: Lampião, Maria Bonita, Luiz Pedro, Vila Nova (afilhado de Luiz Pedro) Quinta-feira, Amoroso, Moeda, Cajarana, Caixa de Fósforos, Elétrico, Paturi, Diferente e Vinte Cinco.

Este grupo ficou perto de uma pequena furna. O mais abaixo do riacho. Lampião estava em barraca de lona branca; os cabras um pouco mais afastados.

Subgrupo de Balão. Vinte braças mais acima: Balão, Mergulhão, Criança e Dulce. Cajazeira e Enedina, Candeeiro, Mangueira II e depois José (sobrinho de Lampião que veio ingressar no cangaço e só chegou no dia 25) e que depois foi para o grupo de cima).

Subgrupo de José Sereno. Vinte braças mais acima: José Sereno e Cila, Marinheiro, Gavião, Cobra Verde, Sabiá, Nevoeiro, Pernambuco, Novo Tempo, Juriti e Peitica.

Subgrupo de Relâmpago. No alto do morro das Imburanas: Relâmpago, Cruzeiro, Zé de Vera, Marinheiro, Chá Preto II (vigia dos cavalos) Tempo Duro, Canário II (depois José que subiu).

Temos aí um total de 41 cangaceiros. Lampião comenta que quer sair no dia 27, fim da semana da morte do padre Cícero Romão Batista. Manda chamar Zé Sereno, por Eráclito, coiteiro fiel de uma das fazendas de Antônio Caixeiro.

Observação: Paturi depois vai testemunhar tudo que viu com o ataque das volantes. Dizem que não existiu cangaceiro com esse nome, entretanto, para se dá o depoimento que ele deu, teria mesmo que usar um nome diferente.

Quanto a Chá Preto, Mangueira e Juriti, houve mais de um no bando que iam herdando o nome dos que morreram.

Continua amanhã.

* Narrativa baseada no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.

OS DOIS ÚLTIMOS COMBATES E A ÚLTIMA VIAGEM DE LAMPIÃO (I)

Clerisvaldo B. Chagas, 20 de julho de 2015

Crônica Nº 1.453

Livro "Lampião em Alagoas" (Foto: Reprodução)

Livro “Lampião em Alagoas” (Foto: Reprodução)

 O dia 18 de abril e o dia 19, deste ano, marcam os dois últimos combates de Lampião em sua vida de atropelos. O combate mais forte aconteceu no povoado Girau do Ponciano, agreste de Alagoas, no dia 18 de abril de 1938. O chefe cangaceiro encontrava-se com 17 cabras no povoado fazendo tropelias, quando foi surpreendido pelo sargento e delegado de Batalha, Waldemar, com dois soldados e alguns civis. O lugarejo estava sendo saqueado pelo bando, numa marcha de dez dias que Lampião havia empreendido desde o rio São Francisco rumo a Pernambuco, atravessando o estado de Alagoas.

“O tiroteio começou feroz e desordenado. Os bandidos talvez pensassem que estavam sendo atacados por grande número de atacantes. Waldemar rastejava em direção de uma casa onde supunha está o grosso do bando. O sargento foi ferido no terço médio do braço direito. A bala transfixou o braço alojando-se na região umbilical, mas sem atingir órgão vital”. O sargento passou a atirar com o outro braço cada vez mais animando os seus soldados. Um deles caiu ferido e o sargento recuou ao ponto de partida. “Restavam dois homens atirando. Um já ferido outro prostrado ao chão, esvaindo-se em sangue. O sargento brigava como um leão. Os bandidos foram amortecendo o fogo e fugiram”.

No dia seguinte, 19 de abril de 1938, continuando suas andanças sinistras, Virgolino invadiu e saqueou o povoado vizinho, Craíbas. Aí houve um combate menor, sendo o último de fato da vida de Lampião. A luta foi entre Lampião e seus 17 cangaceiros contra a volante alagoana do sargento Porfírio que marchava em busca do bandido, desde a serra da Brecha em Cacimbinhas. O único ferido nesse combate foi uma idosa, de bala perdida.

Lampião conseguiu escapar do cerco na sua marcha dos dez dias atravessando Alagoas e penetrando em Pernambuco pela fazenda Santo Antônio, município de Bom Conselho, em 27 de abril de 1938.

Portanto seus dois últimos combates estão dentro dos 77 anos e quase três meses.

·

A ÚLTIMA VIAGEM DE LAMPIÃO

20.07.1938. (Quarta-feira). Era a semana de aniversário de morte do padre Cícero. Lampião queria se recolher e rezar. Estava na fazenda São Francisco no município de Pão de Açúcar (AL) e havia estado em Pernambuco pela última vez. Sentia pressentimentos do fim. Daí parte para Angicos durante à tarde, fazendo a sua última viagem. Descendo, passa a uma légua e meia das fazendas ou por dentro delas, rumo ao rio São Francisco: São Francisco, Conceição, Bom Jardim, Bela Vista e Bardão. Para na fazenda de testa com o rio, chamada Bonito (uma légua abaixo do povoado Entremontes) município de Piranhas.

Em Bonito, houve muita comida, pirão com ovos moles, cozidos, peixe, tapioca e café.

Lampião e o bando atravessam o rio São Francisco à noite. Lua minguante, escuro, frio e vento. São 18 pessoas em três canoas arranjadas por Domingos Ventura (o Domingos de Patos). Os canoeiros são Né Correia, Erasmo Félix e Joca do Capim. O cachorro “Guarani”, de Lampião vai com eles. Lampião tem pressentimentos e Maria Bonita está nervosa. Passa uma zelação e eles lembram um vidente da serra Umã sobre o fim.

Em Sergipe desembarcam na fazenda Capoeira Nova, sob pé d’água passageiro com relâmpagos. Abrigam-se. A mãe da lua surge com mau augúrio Guarani tremelica de medo com uivos de outros cachorros por perto que nem tiros conseguem espantar.

Passam a chuva e seguem para o coito de Angicos, disfarçando. Angicos era propriedade de Cândido Rodrigues (pai de Pedro de Cândido, Ozéas, Zezé e Durval). Nessa época Cândido Rodrigues já era falecido. Município de Poço Redondo. A fazenda é perto do rio, mas Lampião segue rodeando para não ser visto da outra margem, pretendendo entrar no coito por trás. Para isso passa pelas fazendas Macaba, Bebedouro, São João, Jacaré, Cajueiro, Lajeiro, Paraíso e Logradouro (esta do coiteiro Júlio Félix, vizinha ao coito) Aí é agasalhado e alimentado. Amanhece na grota da fazenda Angicos.

Essa foi a sua última viagem.

* Baseado no livro: CHAGAS, Clerisvaldo B. & FAUSTO, Marcello. Lampião em Alagoas. Maceió, Grafmarques, 2012.