OS CASARÕES DE SANTANA

Foto: Acervo Darras Noya / Domínio Público

Houve um impacto entontecedor quando saiu à súbita notícia de iminente demolição dos grandes casarões de Santana do Ipanema. O chamado popularmente “prédio do meio da rua” e o “sobrado do meio rua”, estavam definitivamente na ideia fixa do, então, prefeito Ulisses Silva. Derrubá-los a cacete como se derruba um bode, estirá-los de cabeça para baixo e tirar o couro.

Assim a cidade se dividiu entre saudosistas e futuristas em comentários em todos os pontos bem frequentados da urbe. A surpresa do redemoinho foi tanta que nem deu tempo de muito remoer. Aconteceu como a demolição do primeiro cemitério da cidade, pela noite e na base do cacete, às escondidas para que não houvesse nenhuma polêmica. Pelo menos o espetáculo dos casarões foi às claras com a populaça boquiaberta e tonta.

Os dois casarões haviam sido construídos nos tempos de vila no centro do amplo quadro comercial. A impressão que se tem é que todos os quadrantes do comércio já estavam preenchidos com prédios de negócios e residências, tendo ficado o enorme vazio no meio. Foi, então, que alguém muito poderoso conseguiu o espaço público para a construção dos dois enormes casarões repartidos para fins comerciais.

O “prédio do meio da rua” abrigava farmácia, armazém de secos e molhados, lojas de tecidos, barbearia e outros ramos substituídos pelo tempo. O prefeito demolidor morava no único primeiro andar do prédio, um pequeno cômodo de esquina. O “sobrado do meio da rua” era muito mais elegante com cerca de três casas comerciais no térreo e um primeiro andar em salão único que ocupava toda a estrutura. Ali funcionaram os primeiros cinemas, teatros e o Tribunal do Júri, entre outras coisas.

Muito se poderia ainda dizer sobre os dois casarões, mas deixamos a cargo do “O Boi, a Bota e a Batina; História Completa de Santana do Ipanema”, inclusive, com o mapa de todas as casas comerciais de Santana, títulos de fachadas e proprietários: relíquia única para o santanense. Acompanhei a demolição e tenho detalhes no papel. Com a demolição do “prédio do meio da rua”, se foi o meu primeiro barbeiro, Nésio e sua máquina manual torturante.

Quem irá financiar O BOI, A BOTA E BATINA? O maior documentário jamais produzido no interior.

Clerisvaldo B. Chagas, 6 de outubro de 2017

Crônica 1.753 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

ARTESÃOS SERTANEJOS

Estátua do Jumento, na BR 316 (Foto: Blog do Marques)

Temos visto coisas incríveis dos nossos artesãos alagoanos. Alguns se tornaram famosos e são os que mais ocupam o espaço de noticiários oficiais. Muitos ainda continuam no anonimato, embora as diversas organizações tenham melhorado em muito a visibilidade dos nossos artistas. A maioria trabalha especificamente com apenas uma matéria dominante e outros são versáteis.

A estátua do jumento em Santana do Ipanema e a sereia na praia de Pajuçara atestaram competência e criatividade dos nossos escultores com obras maiores. Devido aos diversos tipos de produtos encontrados atualmente no mercado, fica mais fácil enxertar o sonho à realidade. O Sertão precisa reconhecer em monumentos os heróis anônimos no progresso regional.

Assim Santana do Ipanema tem condições de produzir estátuas através dos seus artesãos, representando os tipos regionais que ergueram à cidade. Entre eles está o vaqueiro, o almocreve, o carreiro, o tirador de leite, o canoeiro, o oleiro e até o banhista representando todos os santanenses quando do Poço dos Homens, do Juá e da Barragem.

Foram eles heróis que ergueram a minha terra: O vaqueiro e o tirador de leite representam os sustentáculos das fazendas; o almocreve e o carreiro exportavam e importavam as mercadorias garantindo o abastecimento, encurtando e alargando estradas; o canoeiro serviu à cidade nos momentos mais difíceis das cheias do Ipanema; o oleiro foi quem ergueu a cidade fabricando telhas e tijolos no Minuíno (três olarias grandes e várias pequenas); e o banhista como homenagem a todos que viveram à época dos banhos e das praias do rio.

Se gritarem pelos artesãos locais, eles atenderão o chamado. E um conjunto de sete estátuas erguidas todas em um só lugar, digno e protegido, com boa iluminação e ajardinado, identificadas e com breves históricos, tornar-se-ia ponto turístico de alto valor. Essa ideia não é de agora. Mas agora pode ser o momento de realização para ornar e valorizar a história do município. Uma parceria entre empresários e poder público seria uma solução e oportunidade para os artistas regionais. Quanto ao tipo de material utilizado nas estátuas, os próprios artesãos estudariam o melhor para a resistência às intempéries.

Estão lembrados da ideia que demos da construção de uma Senhora Santa Ana com 30 metros de altura em jardim especial no serrote do Cruzeiro? Pense na homenagem, atração turística e a circulação de dinheiro no município! Infelizmente em todos os lugares tem também os que somente puxam para baixo.

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de outubro de 2017

Crônica 1.752 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

O BACURAU

Nós santanenses estamos dentro dos 79 anos em que foi construído o prédio  do Bacurau, na Rua e Bairro São Pedro. Numa situação política difícil em que o País estava passando, ainda vivíamos na série infindável de interventores.

Nessa época funcionava a escola particular Colégio Santanense, na Rua Nova, quando em 1938 foi inaugurado o Grupo Escolar Padre Francisco Correia no Bairro Monumento. Essa foi a primeira escola pública grande em Santana para funcionar com o Curso Primário.

Mesmo assim escolinhas particulares funcionando em residências continuaram atuando. Entre 1937-38 surgiu, então, o prédio na Rua e Bairro São Pedro, com o nome “Escola Batista Accioly” com a finalidade de matricular adultos trabalhadores para o estudo noturno.

Ainda no mesmo ano de 1938, no dia 28 de julho, tomava posse como interventor/prefeito o senhor Pedro Gaia, vindo de Palmeira dos Índios. Durante a comemoração de posse chegou a notícia, através de telegrama vindo de Piranhas, da morte de Lampião, Marias Bonita e mais nove sequazes.

No dia 30 de julho, à tarde, as cabeças dos cangaceiros mortos chegaram a Santana quando houve desfile de tropas do batalhão, feriado e exposição das cabeças dos bandidos nos degraus da igrejinha do Monumento. O prefeito e interventor Pedro Gaia foi o mesmo que reformou a prefeitura e abriu a estrada Santana – Águas Belas.

Como o prefeito anterior governou até a metade de 1938, não se sabe quem construiu o prédio da Rua São Pedro, ou Joaquim Ferreira da Silva ou Pedro Rodrigues Gaia.

Finalmente a Escola Batista Accioly funcionou com o apelido de “Bacurau” apenas porque funcionava à noite. Claro que o apelido tornou-se pejorativo, mas escrevemos com orgulho os lugares batizados pelo povo. O Bacurau passou muito tempo ocioso e outros com atividades passageiras até que foi transformado em biblioteca pública de bairro e que leva o nome da professora Adercina Limeira.

Trata-se de apenas um salão. A última vez em que ali estive foi para ministrar uma palestra sobre a História de Santana e do Bairro São Pedro. Impressionou-me a luminosidade natural que entra por todos os lados. Foi muita emoção falar sobre o Bairro São Pedro, a professora Adercina Limeira, muito amiga da minha mãe, professora Helena Braga, rever a riqueza cultural do Bairro hoje esquecido e repassar a nossa história para as gerações dos pequenos.

Já fui aluno ali em curso particular preparatório para o Ginásio Santana.

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de outubro de 2017

Crônica 1.751 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

MAMONA, REBANHO DE PESTE!

Foto: Remédio da Terra

Houve época em que o sertanejo de Alagoas plantava feijão e milho como cereais básicos e tradicionais. O algodão, estimulado desde a década de 20, assegurava uma quantia extra de final de ano. Era esta renda extra que vestia e calçava a família campesina. O produto era dirigido à indústria e havia várias algodoeiras receptando, beneficiando, enfardando e exportando o capulho para as grandes indústrias brasileiras.

Além das bolandeiras distribuídas por altos fazendeiros, a cidade de Santana do Ipanema tinha várias algodoeiras que geravam emprego e renda na área do semiárido. Um grande sertanejo dizia que “era preciso pelo menos UM produto industrial nas roças sertanejas” para fazer o papel do algodão.

Pois bem, as “farras” das grandes produções sertanejas de milho e feijão acabaram. As terras cansadas por vários fatores empobreceram o povo. Até a chamada Festa Regional do Feijão que em Santana do Ipanema foi apontada como a segunda festa agrícola do Brasil, há muito deixou de existir. Todas as algodoeiras fecharam com a política mesquinha do algodão.

Dois bons produtos hoje desafiam os mandantes que não estão nem aí para ideias progressistas: a goiaba e a mamona. A primeira está presente em todos os quintais sertanejos em cidades, vilas e povoados. Mas cadê pelo menos uma só fábrica de doce para estimular o cultivo e o cooperativismo?

A outra é a mamona que prolifera em todos os quintais da pobreza, em margens e leitos secos de riachos e rio Ipanema, trecho urbano. Tem tanta carrapateira, camarada, que antes e ainda hoje o vegetal serve de privada das casas sem banheiro. Com algumas desculpas esfarrapadas, não foi à frente qualquer projeto de se cultivar para a indústria. Mas algumas regiões do Brasil estão produzindo e colhendo para a indústria do biodiesel.

Enquanto isso as nossas terras sertanejas exauridas e abandonadas pela boa vontade do poder público, vão produzindo apenas urtigas e rasga-beiço pelas veredas que as cercam. Foi por isso que em um bar famoso de Santana do Ipanema, entre outros, esse tema foi tocado.  Levantou-se da mesa um ex-bancário, agricultor e, erguendo os dois braços, falou quase gritando: “Mamona, rebanho de pestes!”.

Clerisvaldo B. Chagas, 3 de outubro de 2017

Crônica 1.750 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

NA ANTÁRTIDA BRASILEIRA

Foto: Divulgação

Alguns países do mundo mantêm bases de pesquisas científicas no Continente Gelado, inclusive, o Brasil. Você lembra o incêndio que houve em nossa estação da Antártida em 2012? Custou a vida de dois militares e prejuízo de milhões. As pesquisas brasileiras, então, passaram a funcionar provisoriamente na base da Marinha. Mas era importante que o nosso País tivesse um amparo físico adequado às suas pesquisas.

Assim em 2014 um edital para a construção ou reconstrução da Estação Brasileira Comandante Ferraz, não conseguiu nenhuma empresa brasileira interessada, o que acabou em mãos dos chineses. Agora a estrutura está pronta em Xangai, feita de aço e que será desarmada e acomodada em navio para transporte àquele continente.

A Construtora chinesa CEIEC, vai montar a nova estação na Antártida que teve a inspeção constante de quatro engenheiros navais brasileiros em todas as etapas na China. O investimento é de 110 milhões de dólares e o Brasil não pode ficar fora dessa elite de países que pesquisam oficialmente no Continente.

O futuro será vantajoso para cada um deles e várias ciências serão beneficiadas com todas as descobertas científicas. Tudo estará completamente pronto em 2019, dizem as previsões dos envolvidos no projeto. Sabe-se que o Continente Gelado influencia todos os climas da terra. É de lá que vem às massas de ar geladas que sobem pelo Brasil chegando mesmo até a Amazônia em tempos de inverno.

As riquezas minerais que estão no seu subsolo, causam grandes cobiças internacionais. Entre eles estão o carvão, ferro, campos petrolíferos e gás e, tudo indica, minas de diamantes. No Protocolo de Proteção Ambiental do Tratado da Antártida está proibida sua exploração até 2048, quando outras providências serão tomadas a partir daí.

Além disso, existe a riqueza animal e vegetal da região que se enquadram nas pesquisas dos países presentes no gelo. Mas, voltando ao assunto da nova estrutura da estação brasileira na Antártida, é bela e de aspecto futurista. Basta uma espiada na foto acima para senti-la. Não nos parece com cara de chinês e nem com cara de brasileiro, apenas com cara de futuro.

Clerisvaldo B. Chagas, 2 de outubro de 2017

Crônica 1.749 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

MOQUÉM E NÃO MUQUÉM

Mutum de Alagoas foi reintroduzido no estado (Foto: IMA)

Com a transformação da escrita, principalmente nesses tempos modernos, muita gente jovem engole calada ou mergulha na pesquisa de palavras quase em desuso. Uma delas voltou com tudo em Alagoas e no Brasil, nos últimos dias. A outra faz parte de algumas comunidades quilombolas, mas no geral está praticamente esquecida. São elas: mutum e moquém. Em nossa infância quando alguém falava em mutum quase sempre era para rimar. A mesma coisa acontecia com a outra palavra. Havia na época até uma piada de putaria que circulava entre os adolescentes. Um sujeito era fanho (outra palavra de pouco uso) e ouvira o cantador dizer: amanhã eu vou ao Mutum. E o fanho dizia para imitar: amanhã em vou no u… Dum. Entendeu, não é?

Pois bem, o mutum é uma ave que em nosso estado e no Brasil é chamada mutum-de-alagoas. Foi considerada extinta por aqui, pois não se via um mutum na Mata Atlântica de Alagoas há trinta anos. Com a volta de casal trazido do cativeiro, o Pauxi mútu se encontra em viveiro na Usina Utinga, até se adaptar e partir para a natureza. Assim o governador, sexta-feira passada (22) decretou o mutum como ave símbolo de Alagoas. Você deve saber que no caso da Flora, já tínhamos o símbolo do estado que é a craibeira, não é? Pois agora temos os dois o da Flora e da Fauna: Craibeira e Mutum. Bem que isso daria belo tema para um trabalho escolar. Outros dois casais criados em cativeiro também estarão chegando para povoar as nossas matas.

Sobre o moquém, se você ainda não descobriu, é uma antiga cozinha ou uma grelha alta na cozinha que usava lenha para esquentar (moquear) a carne para que ela tivesse maior durabilidade. Essa palavra sempre foi muita usada nas comunidades negras dos quilombolas e nos parece africana. Assim fica mais fácil entender o desafio do título desta crônica. Bem, agora que o título estar entendido como carne moqueada, não quer dizer que iremos capturar o casal de mutum que chegou ao nosso estado para metê-lo na grelha e se deliciar. E se você sabia de tudo, parabéns, está bem informado. E se não sabia, vamos fazer como dizia Camões, segundo o povo: “É morrendo e aprendendo”.

Clerisvaldo B. Chagas, 29 de setembro de 2017

Crônica 1.748 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

REALIDADE DA POPULAÇÃO

Centro de Arapiraca (Foto: Secom Arapiraca)

O meu amigo leitor sabe quais são as nove maiores cidades de cada estado nordestino, tirando as capitais? Caso tenha esquecido, iremos lembrá-lo nessa nova ordem brasileira.

Nas últimas décadas as pessoas têm procurado mais as grandes cidades do interior para viver. Esses aglomerados urbanos se modernizam oferecendo quase tudo que se encontra nas capitais, a maioria em regiões litorâneas. Para facilitar sua compreensão, vamos apresentar a maior cidade em cada estado nordestino pela ordem.

Onúmero de habitantes de cada uma delas está em número redondo, assim distribuído: a maior de todas as cidades do Nordeste, tirantes as capitais é: Jaboatão dos Guararapes, 695.000 habitantes (Pernambuco). E nos outros estados são as maiores: Feira de Santana, 627.000 habitantes (Bahia); Campina Grande, 407.000 habitantes (Paraíba); Caucaia, 358.000 habitantes (Ceará); Mossoró, 295.000 habitantes (Rio Grande do Norte); Imperatriz, 254.000 habitantes (Maranhão); Arapiraca, 237.000 habitantes (Alagoas); Nossa Senhora do Socorro, 181.000 habitantes (Sergipe); Parnaíba, 150.000 (Piauí).

Visto, então, as cidades acima, podemos dizer que elas são as em cada um dos nove estados nordestinos. Jaboatão dos Guararapes – vencedor entre todos os estados – faz parte da região metropolitana do Recife. É conhecida como Berço da Pátria, por ter sido palco da Batalha dos Guararapes, travada em dois confrontos em 1648 e 1649. Com esse acontecimento, pernambucanos e portugueses expulsaram os invasores holandeses. Por essa luta, em 1989, o município passou a chamar-se Jaboatão dos Guararapes, mas também por outros motivos.

Como se vê, a casa dos 600,000 habitantes é reduzida entre os núcleos interioranos, não passando de apenas duas cidades. Na faixa dos 500.000 habitantes não existe nenhuma. A mais comum é a faixa dos 200.000 habitantes, mas não tão comum assim.

Para nós, moradores do Nordeste, uma cidade do interior com mais de 200.000 habitantes, já representa um monumento gerador de empregos, renda e serviços essenciais à população. São elas as preferidas nesse fluxo migratório de início de Século XXI.

Clerisvaldo B. Chagas, 28 de setembro de 2017

Crônica 1.747 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

O SURURU DE ALAGOAS

Sururu é um dos mariscos mais usados na culinária alagoana (foto: cultura.al.gov.br)

O famoso sururu de Maceió tem denominação vinda do tupi. É um molusco bivalve, isto é, que possui duas conchas duras e por isso chamado também de sururu-de-capote.

Retiradodas conchas apresenta-se amarelado e comestível. Seu nome científico é Mytela charruana conhecido em outros lugares como mexilhão. Esse molusco também pode ser encontrado em partes de estados nordestinos como Bahia, Sergipe, Pernambuco, Maranhão e em áreas específicas.

Masé em território alagoano onde alcança grande notoriedade, sendo até considerado Patrimônio Imaterial de Alagoas pelo Conselho Estadual de Cultura. No prato possui proteínas de alta qualidade, tem baixo teor de gordura e apresenta-se como de fácil digestão.

Apesar de o sururu ser apontado como coisa de pobre, ele está presente em todas às mesas do estado, inclusive nos restaurantes mais grã-finos.

Écapturado nas lagoas e mais de trezentas famílias vivem da sua cadeia produtiva na sequência: capturar, lavar, peneirar, “despinicar” e vender.

Como curiosidade, a palavra regional despinicar, ficou fora do dicionário, mas significa limpar, retirar os excessos com os dedos.

Quandoas águas temperadas das lagoas ficam muito doces, o molusco desaparece. Foi o que aconteceu agora com os rios despejando nas lagunas neste inverno prolongado. Temporariamente ficamos sem as vendedoras típicas de sururu gritando o produto pelas ruas da cidade.

Vários pratos são feitos com o molusco como o inigualável “caldinho de sururu” e a “moqueca de sururu”, além do pirão de “sururu-de-capote” e sanduiches. Mas devido à poluição de esgotos domésticos e industriais e o manejo sem higiene, doenças graves ameaçam também seus consumidores.

Faltaa presença constante do estado em toda a sua cadeia produtiva num trabalho contínuo e ininterrupto em favor da saúde do alagoano. As pessoas que vivem diretamente do sururu, geralmente moram no entorno das lagunas e, na falta do molusco, tentam a pesca comum, o que nem sempre dá bons resultados.

Vamos aguardar à volta do bicho.

Clerisvaldo B. Chagas, 27 de setembro de 2017

Crônica 1.746 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

ALAGOAS, MAIS NOTÍCIA ALVISSAREIRA

Matadouro Público em Santana do Ipanema foi fechado (Foto: Alagoas na Net)

Mais uma auspiciosa notícia para os marchantes e consumidores alagoanos. A vivência de muitos abatedouros de bovinos cem por cento medievais, parece se aproximar do fim.  As reclamações sobre reses doentes e até cancerosas, o método brutal do machado, a higiene zero e a ampla poluição do meio ambiente, atraíram as fiscalizações de certo tempo para cá. Vários abatedouros foram interditados pondo em polvorosa os marchantes que partiram para encomendar o abate em pontos distantes ou para a clandestinidade. Finalmente um aceno providencial do governo do estado, parece tentar resolver a situação.

O governo anunciou semana passada que  vai gastar trinta milhões para revitalizar e construir abatedouros regionais nos municípios de Viçosa, Murici, Matriz de Camaragibe, União dos Palmares, Santana do Ipanema, Delmiro Gouveia e Igreja Nova.

Haverá um agendamento das obras, mas não ficou claro se será pela ordem mostrada acima. Segundo as mesmas fontes, cada abatedouro frigorífico terá capacidade de abate diário de até 150 animais com estrutura física adequada e equipamentos modernos, visando atender a demanda de sua respectiva região. O Programa de Regionalização de Abatedouro terá um modelo de gestão de concessão pública, além de aquisição de caminhões para o transporte das carnes, câmaras frigoríficas, freezer, balanças e outros.

O falado projeto terá início com a cidade de Viçosa, Zona da Mata Alagoana, onde o matadouro será concedido à iniciativa privada. Ainda sobre Viçosa, existe a garantia que até o fim deste mês será lançado o edital. A divulgação do Projeto de Regionalização de Abatedouro foi feita pela Imprensa semana passada. O jeito agora é aguardar na fila essa solução providencial.

Em Santana do Ipanema, não sabemos se o Matadouro será no mesmo lugar do antigo, o que seria uma lástima. A poluição ambiental atinge diretamente o rio Ipanema. E se for no sítio João Gomes, este é banhado pelo  riacho  do mesmo nome afluente importante do Panema. Mas como estão falando em modernismo pode ser que todos os cuidados sejam exercidos contra a poluição futura.

O rio Ipanema continua pedido SOCORRO.

Clerisvaldo B. Chagas, 26 de setembro de 2017

Crônica 1.745 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

CARNEIROS NO MEU SERTÃO

Praça em Carneiros (Foto: Internet)

O tempo passa, a gente vai guardando os passos e esticando as lembranças. Vários povoados, vilas e distritos se emanciparam da minha terra Santana do Ipanema, então, com o maior território municipal do estado. Entre eles se encontra o atual município de Carneiros desmembrado em 11 de julho de 1962. Em 1923, contam os carneirenses, havia por ali um sítio criador de carneiros, pertencente ao senhor João Francisco. E por um dos seus carneiros ter descoberto uma cacimba, ficou o lugar denominado Cacimba do Carneiro. O tempo reduziu o título e acrescentou um “S”, refletindo mais tarde, na Emancipação como Carneiros. Outras pessoas foram atraídas pela fertilidade das suas terras, proporcionando seu crescimento social, chegando a primeira missa e primeira feira do povoado em 25 de dezembro de 1945.

De Carneiros ainda lembro meu pai mascateando em sua feira aos domingos; do comerciante bem humorado Zé da Loja; do meu colega de república estudantil em Maceió, Aristeu dos Anjos, prefeito por duas gestões e, do repentista Zezinho da Divisão que morava na divisa Carneiros/Santana. Carneiros é uma cidade pequena, plana, limpa, cheia de sol e agradável. Surpresa boa entre Santana do Ipanema, Senador Rui Palmeira, São José da Tapera e Olho d’Água das Flores. Seus festejos não são muitos, mas se mostram intensos na festa da padroeira Nossa Senhora da Conceição e na data emancipatória.

Mas em Carneiros não pode faltar uma festa que se tornou tradicional. Este ano, a comemoração aos trabalhadores completou 29 vezes em evidência. A Festa dos Trabalhadores aconteceu no dia 29 de abril. Apesar da grande distância à capital, atrai pessoas de todos os quadrantes do estado. Carneiros fica bastante animada em vê tanta gente de fora na cidade que não chega aos dez mil habitantes. Geralmente acontece missa em ação de graças e muitas brincadeiras como corrida de saco, corrida do ovo, ciclismo, corrida de jegue, quebra-pote e pau-de-sebo. Durante a festa, ainda tem homenagem aos trabalhadores e apresentações de cantores e músicos, tanto da terra quanto de fora. E se fosse vivo, o repentista Zezinho da Divisão, meio santanense, meio carneirense, com o hábito do tema preferido: “Só vai arrochando tudo” diria mais ou menos assim sobre Carneiros:

Se chegar um valentão

Desse tipo arruaceiro

Não passe no meu terreiro

Se não ganha uma lição

Vou chamar o campeão

O meu carneiro marrudo

Ele dá marrada em tudo

Tora a banana e o cacho

Acabou-se o homem macho

Só vai arrochando tudo.

Clerisvaldo B. Chagas, 25 de setembro de 2017

Crônica 1.744 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano