Não é necessário dizer que nos últimos quatro anos nosso País viu surgir uma onda de desinformação, de negação da ciência e do império da mentira: as famosas fake News. Na esteira desta onda, até mesmo alguns comportamentos históricos mudaram. Alunos, antes muito tímidos para debater nas aulas, se sentiram com autoridade para contestar ideias científicas seculares – inclusive a esfericidade do planeta Terra. Tornou-se comum, também, alunos discordarem de seus professores se estes ensinam algo que destoa da base ideológica da extrema direita. A contestação não vem acompanhada de argumentos válidos e racionais, mas, debaixo de acusações de tentativa de “doutrinação” – usando o termo favorito do Projeto Escola Sem Partido, declarado inconstitucional pelo STF – Supremo Tribunal Federal – ou de ensino ideológico.
Todavia, mesmo antes deste período, uma questão candente no campo da educação sempre foi o dilema vivido pelos professores em suas rotinas diárias. Afinal, qual é a natureza do trabalho do professor? Ele é um operador de um sistema cheio de planilhas, índices, legislações, conteúdos a serem repassados? Ou ele é um agente para auxiliar os alunos a pensar logicamente, refletir, fugir dos conceitos do senso comum – no sentido de não se conformarem somente com eles como conceitos definitivos da realidade – e formarem uma mentalidade científica, capaz de formar uma sociedade capaz de responder às demandas tecnológicas contemporâneas?
Em primeiro lugar, devemos lembrar que a lógica do nosso tempo é a lógica capitalista. Esta mesma lógica, visando a otimização dos lucros e o aumento da produtividade, criou o processo produtivo conhecido como Toyotismo. Neste, o operário é polivalente, com capacidade para operar uma variedade de máquinas.
Em segundo lugar, aquilo que é o modo de produção de uma sociedade, acaba moldando sua forma de pensar, de agir e, até de sentir (parafraseando Emile Durkheim ao descrever o Fato Social que, segundo ele, deveria ser o objeto de estudo da Sociologia).
Tomando como ponto de partida desta discussão estas duas premissas, trava-se a seguinte discussão: o professor, além de catalisador do processo de aquisição de conhecimentos é também um operário? Isto inclui, de imediato, as discussões sobre o Novo Ensino Médio, o qual leva professores especialistas em suas áreas a se aventurarem em ramos sobre os quais não têm o menor domínio: são professores de matemática ensinando sobre alimentação saúdável – alguns, como eu, talvez nem saibam distinguir de forma científica uma proteína de uma vitamina – professores de filosofia e sociologia ensinando robótica, e por aí vai…
Para o capitalismo, como dizia Karl Marx em O Capital, o que importa é o lucro – o capital visa o lucro e o lucro incessante. A educação, para o Capital é um instrumento de formação de mão de obra, de preferência especializada e, agora, polivalente.
O professor ainda goza de um certo prestígio na sociedade. Mas, este prestígio não é acompanhado de uma remuneração compatível com um trabalho cada vez mais estressante. O professor é um profissional que começa a trabalhar antes do seu horário de expediente e, mesmo depois do expediente, leva trabalho para casa; muitas vezes, se tenta atribuir o fracasso escolar à atuação dos professores, embora nem sempre lhe sejam dadas as condições necessárias – nem falo mais de “condições ideais” – para realizar o seu trabalho.
O professor além de ser tratado como um operário, é, também, um “sofressor” aquele que sofre em função de tentar ver as coisas acontecerem apesar das dificuldades e contradições da educação no Brasil; ele sofre também por perceber que a estrutura da educação é perversa: existem coisas simples e relativamente baratas que eliminariam problemas e estas não são implementadas, como, por exemplo, uma boa internet para alunos, professores e para as escolas. Boa parte da defasagem da aprendizagem durante a Pandemia do Coronavírus se deve à ausência de internet em algumas regiões. E este é apenas um dos muitos ítens!
A muito custo, os professores conseguiram conquistar um terço do seu horário para planejamento. Este terço de horário serviria para leitura, preparação de aulas, de avaliações, correções de trabalhos e provas e inserção das informações nos diários. Todavia o sistema confiscou 50 a 60% do horário para uso das escolas (60% no Ensino Fundamental e 50% no Ensino Médio) ou das Secretárias de Educação. Então, um professor de 40 horas semanais teria algo em torno de 13 horas e acabou ficando com metade disto! É como se o trabalho de professor fosse apenas entrar em uma sala de aula e desenvolver uma atividade mecânica (operária, fordista e toyotista) produzindo trabalhadores em série para entregar ao sistema. Como se não precisasse de um tempo de preparação.
Além disso, vimos discursos que negam aos alunos das classes menos favorecidas a possibilidade de ascenção intelectual, indo para a universidade, por exemplo. O Ex-Ministro de Educação Milton Ribeiro disse numa entrevista: “A universidade deveria, na verdade, ser para poucos…”. Num contexto onde a universidade é para poucos e a prioridade é para os cursos profissionalizantes, para que um professor-intelectual? Basta um professor-operário.
A elite brasileira, que controla o Estado já provou para a sociedade brasileira seu ponto de vista: para a elite tudo, para os pobres, as migalhas. O discurso indignado do Ministro da Economia porque domésticas iam a Disney é paradigmático: pobre, neste País, só tem direito de trabalhar e pagar quase seis meses de seu salário em impostos para sustentar o luxo e o conforto das classes mais elevadas.
E como a educação pública tem, prioritariamente, como público-alvo os pobres, pode-se imaginar qual é o pensamento que vigora no planejamento da mesma.
*Luiz Marcos Silva é professor de Ensino Religioso e de Sociologia. Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais / Bacharel em Teologia / Especialista em Ensino de Sociologia